domingo, 11 de dezembro de 2011

Abraão x Tomé

Tamanho da fonte
+ + +

     Vale a pena apreciar por alguns momentos as duas obras de arte abaixo, do mestre italiano Caravaggio (1571 – 1610), que adorava pintar temas bíblicos.

 "O sacrifício de Isaque"

 

Incredulidade_de_Tomas

     Abraão e Tomé (ou Tomás) são personagens bíblicos muito interessantes. Eles ilustram atitudes mentais opostas: um é o crédulo à toda prova, exemplo de fé cega em Deus; o outro, exemplo de ceticismo, um homem prático que pedia evidências para acreditar em fatos incomuns. Por motivos óbvios, as religiões preferem promover o exemplo de Abraão; atitudes como a de Tomé são desprezadas como sinais de fraqueza moral.

     Abraão teria sacrificado seu filho a pedido de Deus, se o próprio Deus, num capricho de adolescente, não tivesse mudado de ideia e detido a mão do homem no último instante. Pela fé cega que demonstrou, Abraão é louvado e retratado como um modelo de virtude na Bíblia. Mas convenhamos, ao menos nessa ocasião, Abraão foi um idiota. E se fosse o Diabo tentando enganá-lo  se passando por Deus? E se Abraão estivesse apenas ficando louco? Por que ele não considerou essas hipóteses e foi direto cumprir a ordem assassina? O desfecho feliz do episódio não muda o fato de que o velho ia degolar o próprio filho em sacrifício.

     Tomé, ao contrário de Abraão, tem um papel muito pequeno na Bíblia. Mas de certa forma ele também é especial: foi o único apóstolo a duvidar seriamente da ressureição do Mestre. Para se convencer, Tomé precisou tocar no corpo do Cristo ressuscitado. No contexto dá Bíblia, Tomé só parece incoerente se levarmos em contas os diversos "prodígios" que todos os apóstolos presenciaram ao longo da convivência com Jesus (mas convenhamos, se quem escreveu os relatos anos depois tivesse que exagerar algo, certamente  escolheria as façanhas de Jesus para isso). Só que Tomé também viu muitíssimas coisas que provavam que Jesus era um homem de carne e osso, mortal como os outros (se tem algo que foi propositalmente omitido na Bíblia, até por falta de significado moral, foram as funções fisiológicas normais de Jesus). Ora, a experiência de Tomé ou de qualquer pessoa nunca deixou dúvidas: os homens morrem e não voltam. Qualquer desvio dessa regra é algo extraordinário, que não pode ser provado simplesmente por relatos de meia dúzia de amigos. Nem a Bíblia, com todas as distorções e exageros, consegue fazer o questionamento de Tomé parecer vergonhoso (até porque ele se redimiu quando constatou seu erro e hoje em dia é tão santo quanto os demais apóstolos).

     Não importa se esses episódios bíblicos ocorreram de fato; eles estão aqui apenas pelo valor ilustrativo. Seria muito fácil tomar os dois personagens como paradigmas realistas do cético e do crédulo, e encerrar o post agora, concluindo que o ceticismo é a melhor atitude. Acontece que Tomé até representa bem um cético moderno, mas seria injusto atribuir às pessoas religiosas atuais a obediência cega demonstrada por Abraão (embora ainda ocorram casos de pessoas matando outras porque acham que isso é a vontade de Deus). Como eu sou um cético, não se pode esperar imparcialidade total aqui. Mas seria desonesto ignorar os argumentos da parte contrária e apresentar a minha posição como a panaceia universal. Existem critérios objetivos para decidir se é melhor ser crédulo ou cético no mundo de hoje? Seria o meio-termo a melhor opção? O restante do post examina essas questões e tenta respondê-las com base em argumentos simples e racionais.

    Neste ponto, é importante definir os competidores. De um lado, o ceticismo, entendido como uma propensão a questionar, duvidar das coisas. É como um firewall intelectual, que tem por objetivo defender o praticante de ideias falsas ou daninhas. Ele se baseia em alguns princípios, tais como: a) se um fato tem duas explicações igualmente prováveis, fique com a mais simples; b) alegações extraordinárias requerem provas muito boas; c) o ônus da prova é de quem defende a alegação. Ser cético não significa ser 100% racional ou questionar tudo, até porque viver assim seria impossível. Do outro lado, temos a credulidade: uma propensão a crer facilmente, geralmente por simplicidade ou ignorância. Não é sinônimo de fé em Deus, embora as duas coisas às vezes andem juntas. Existem muitos graus de religiosidade, não dá pra classificar toda pessoa religiosa como crédula, mas quem acredita em horóscopos, videntes ou duendes certamente se enquadra na definição de crédulo. Ceticismo e credulidade são dois polos no espectro da racionalidade: quando usamos intensamente a razão, estamos automaticamente sendo céticos; quando deixamos a razão de lado – em prol da emoção ou coisa parecida –,  tendemos à credulidade. Toda pessoa oscila entre esses polos em diferentes situações, então o que eu vou chamar de cético aqui é simplesmente alguém que pratica o ceticismo na maior parte do tempo, e o crédulo será o inverso.

     Para saber qual dessas filosofias básicas é melhor para nós, podemos avaliar tanto do ponto de vista pessoal quanto do coletivo. Qual atitude mental é mais indicada para um indivíduo nos tempos modernos? E qual gera mais benefícios para a sociedade como um todo? Nem sempre a atitude coletivamente desejável é a que mais beneficia o indivíduo. Por exemplo: ausência de corrupção é bom para toda a sociedade, mas isso não muda o fato de que a corrupção beneficia o corrupto! Da mesma forma, vacinação é bom para a saúde pública, mas pode chegar um ponto em que, para uma criança individual, o risco inerente à vacina supera o risco de contrair a doença. Felizmente, com o ceticismo esse dilema não acontece: ele é claramente melhor do ponto de vista coletivo, e pelo menos equiparável à credulidade do ponto de vista individual. Mas não acredite nisso antes de examinar os argumentos!

    Vamos começar pela perspectiva do indivíduo. Você, cidadão ocidental alfabetizado, usuário de internet, se pudesse decidir livremente no que acreditar, será que acreditaria exatamente no que acredita agora? Se fosse obrigado a voltar no tempo e pudesse mudar algumas coisas, ainda escolheria torcer pelo mesmo time? Seguiria a mesma religião? Claro que você não pode fazer isso, então apenas se imagine como um observador neutro, isento de preconceitos, interessado apenas em resultados. Como se fosse o presidente de uma indústria, analisando os prós e contras de dois novos produtos que a empresa pretende lançar.

     Apresentamos o primeiro produto para sua avaliação. Nós o chamamos de Ceticismo, e acreditamos que ele traz várias vantagens para o usuário. Em primeiro lugar, protege contra charlatanismos de todo tipo: políticos populistas, pastores sanguessugas, videntes e produtos "milagrosos" anunciados na TV. Ou seja, economiza tempo e dinheiro! Outra vantagem do Ceticismo é que ele favorece o diálogo, a cooperação e a busca de soluções: pesquisas mostram que os indivíduos racionais tem mais chance de resolver os conflitos amigavelmente. Acreditamos também que ele favorece a progressão em carreiras intelectualmente exigentes. Por fim, é um produto que você pode usar em qualquer lugar, em qualquer situação! Não precisa mais ficar trocando entre o "modo crente" na igreja (e na família) e o "modo racional" no escritório. Quanto a desvantagens, nossa equipe de testes encontrou algumas.. vamos a elas: o uso prolongado do ceticismo causa perda de certezas arraigadas e questionamento constante; isso pode gerar inquietação mental e tristeza em alguns indivíduos. O produto tende a provocar a perda do "sentido profundo" da vida. Também é causa potencial de conflitos com terceiros, se estes forem usuários frequentes da Credulidade.

     O segundo produto é justamente a Credulidade. Ela traz um excelente conforto psicológico para o usuário! Você se sente muito bem, parte de algo maior, uma pessoa abençoada e destinada ao sucesso! É o suprassumo do pensamento positivo! E tem mais: quando as coisas dão errado, você nunca se sente culpado! Além disso, você terá uma convivência tranquila com todos que pensam parecido com você... que são a maioria da população! É um produto incrível mesmo, estamos muito animados com ele. Como sempre, a equipe de testes encontrou algumas desvantagens.. mas lembremos que eles são pagos pra isso mesmo: este produto pode tornar o usuário extremamente vulnerável a práticas enganatórias disseminadas em nossa sociedade, notadamente o curandeirismo, as religiões mercenárias  e as promessas políticas vazias. O conforto mental excessivo gerado pelo produto pode levar à perda do hábito de pensar, com diminuição da produtividade no trabalho. Os hábitos de leitura desses indivíduos se mostraram bastante concentrados em torno de um ou dois livros. Os indivíduos que escapam desse padrão são obrigados a cultivar duas atitudes conflitantes em sua vida diária: uma em que suspendem todo julgamento racional, usada nos contextos religiosos e (em menor escala) sociais; e outra, usada em contatos com crenças diferentes ou em profissões intelectuais como medicina, engenharias e ciências em geral. Suspeitamos que essa dualidade cause desconforto mental e prejudique o desempenho profissional, mas não temos dados concretos. A depender da crença específica adotada, o indivíduo pode se sentir compelido a desprezar a ascensão sócio-econômica como algo inútil ou imoral. Credulidade intensa de um tipo pode levar a conflitos violentos com usuários de outros tipos. Acreditamos que o uso prolongado da Credulidade acarreta grandes custos financeiros ocultos, decorrentes tanto da exploração direta por terceiros quanto do comodismo associado a este modo de pensar.

     Se analisarmos com objetividade, o jogo ainda não pende decisivamente para nenhum dos lados. Dependendo do peso que a pessoa dá a um outro fator, a credulidade pode ser mais vantajosa. Não temos como falar em certo ou errado nesse quesito. Cada pessoa está empenhada na busca pela felicidade, e provavelmente está usando as melhores ferramentas que tem à disposição (ou pelo menos acredita nisso, o que é quase a mesma coisa). Claramente, os excessos de um e de outro modo de pensar são prejudiciais ao indivíduo. Se você duvida de tudo e de todos, ninguém gostará de você; também perderá muito tempo "mastigando" desnecessariamente antes de engolir informações inofensivas. Se você acredita em tudo, não passa de um idiota, facilmente manipulável por qualquer um. Só porque você prefere uma das opções, não significa que ela seja a melhor pra todas as pessoas. Se a sua crença torna você mais feliz do que seria com outra crença, então essa é a crença certa para você e não faz o menor sentido tentar mudar.

     Vamos agora pensar um pouco do ponto de vista coletivo. O que funcionaria melhor, uma sociedade com predomínio de céticos ou com predomínio de crédulos? Depende do que a gente chama de "funcionar melhor". Se pensarmos em "estabilidade" e "tradição" como valores fundamentais, provavelmente seria melhor viver como crédulo numa sociedade uniformemente religiosa, como certos países islâmicos. Mas a maioria dos brasileiros concorda com os valores da democracia liberal, ocidental, capitalista, apoiada no progresso técnico-científico. Queremos liberdade de escolha sobre o que comprar, onde morar, como educar nossos filhos, em quem votar nas eleições, que músicas ouvir, e assim por diante. Também gostamos muito do progresso material: queremos um ambiente mais limpo, carros e casas cada vez melhores, comida para todos, produtos mais baratos, remédios mais eficazes, escolas que ensinem nossos filhos a pensar direito e a serem membros produtivos da sociedade, e certamente queremos que os cientistas, engenheiros e médicos continuem pesquisando para nos proporcionar todas essas coisas. Então a questão é: que modo de pensar contribui mais para o tipo de sociedade que nós queremos? Se houver uma resposta definida para essa pergunta, então fica óbvio que, pelo bem da coletividade, deveríamos promover ativamente esse modo de pensar.

     Acontece que o ceticismo é a melhor opção para promover o progresso da sociedade. Não que um crédulo não possa viver bem numa sociedade moderna e desenvolvida (tanto o crédulo como o cético preferem esse tipo de sociedade); acontece que, para promover esse valores ocidentais modernos que tanto apreciamos, o cético médio contribui muito mais que o crédulo médio. Não é muito difícil chegar a essa conclusão. O cético resiste melhor a tentativas de manipulação. Ao mesmo tempo que não acredita em milagres, também não acredita em promessas absurdas feitas por políticos em época de eleição. A essência da verdadeira democracia é ter cidadãos pensantes decidindo individualmente, e não uma massa de manobra desinformada votando por impulso ou porque quer votar no candidato "que vai ganhar". A História também nos mostra que não vale a pena acreditar nas promessas baratas dos ditadores.

     A mesma atitude de rebanho que as religiões tanto gostam de promover foi usada por Hitler para conseguir o apoio do povo alemão. A justificativa de "somos o povo escolhido, somos melhores que eles e temos o direito de dominá-los" foi usada contra o povo judeu por Hitler e pelo povo judeu contra diversos outros povos, como relatado em vários trechos do Antigo Testamento (para uma impressionante sequência de matanças ordenadas por Deus, ver Josué 10:8-42). Onde houver militarismo, patriotismo exagerado ou xenofobia generalizada, é porque o povo não está pensando direito. Pessoas pensando individualmente, de modo cético, nunca produzem esse tipo de resultado. Só quando os indivíduos desligam uma parte muito importante do cérebro – e passam a seguir o que "todo mundo" está fazendo –  é que se tornam joguetes nas mãos de alguém mais esperto (e possivelmente menos escrupuloso).

     O cético não se apega a tradições, que tanto atravancam o desenvolvimento da humanidade. Não é porque as coisas sempre foram feitas de um jeito que esse é o melhor jeito de fazê-las. Não é porque "todo mundo" acredita numa coisa que essa coisa é a verdade. A atitude cética está por trás de todo grande avanço no conhecimento humano; para avançar, muitas vezes é preciso questionar as verdades estabelecidas, e isso dificilmente ocorre nas mentes doutrinadas por alguma religião. (É  verdade que, em certos períodos, os principais avanços científicos foram feitos por pessoas religiosas, como Galileu ou Newton, mas essa combinação está cada vez mais rara. Hoje em dia, a grande maioria dos cientistas bem-sucedidos é de agnósticos ou ateus)

     Muitas pessoas religiosas imaginam que a crença em Deus é necessária para manter a moralidade no mundo, do contrário desmoronaríamos no caos e na barbárie. Durante a evolução das sociedades humanas, é bem provável que a religião tenha sido de fato uma forma de controle social necessária para manter a coesão e avançar, construir as primeiras cidades, aperfeiçoar a tecnologia. Tudo bem, mas isso não prova que a religião continua necessária nos dias de hoje. Se você conhece ateus e religiosos, acredita mesmo que essa característica influencia a moralidade deles? Seria capaz de dizer qual deles tem mais probabilidade de cometer um crime? Infelizmente, não encontrei estatísticas confiáveis a respeito, de modo que apelo à experiência pessoal do leitor. (Estudos nos EUA mostraram que a proporção de ateus é bem menor nas prisões do que na sociedade em geral. Mas é difícil interpretar esses dados, porque há uma certa confusão entre as categorias "ateu" e "sem religião", e principalmente porque na cadeia há uma pressão muito maior para se enquadrar em alguma religião, como forma de proteção)

     A moralidade simplesmente não vem de Deus. É uma característica inata, que evoluiu em paralelo com nosso maravilhoso cérebro; já nascemos com ela e todas as sociedades humanas a possuem. Ela não surgiu porque Deus controlou o processo evolutivo para nobres finalidades, e sim porque a propensão à conduta ética favorecia os indivíduos e grupos onde ela prevalecia. Isso sim, continua tão válido como sempre foi! Se você se comportar de maneira honesta e justa com os outros, eles vão retribuir e você acabará beneficiado. Mas se você sair roubando e matando gente, é óbvio que vai se dar mal! É por isso que não precisamos da ideia de Deus pra manter a ordem aqui na Terra. A sociedade já está crescidinha demais para precisar de um Grande Pastor de Ovelhas.

     Acho que essa argumentação é suficiente quanto às vantagens coletivas da atitude cética no mundo moderno. Para encerrar, gostaria de voltar um pouco às questões individuais. Não citei como vantagem do ceticismo uma que é muito importante para mim: a satisfação intelectual de saber a verdade, ou pelo menos conhecer os limites da minha própria ignorância. A religião simplesmente não oferece isso. Se você segue uma religião e começa a se questionar (e por que Deus te daria um cérebro capaz de questionar?), a única saída é admitir que não tem certeza, mas gosta de acreditar nessas coisas e pronto. E aí você segue pela vida afora acreditando no que a sua religião disse pra acreditar...

     Não é difícil chegar à conclusão de que as religiões não fazem sentido. Qualquer pessoa poderia fazer isso, não precisa ter conhecimento científico avançado; é apenas uma questão de bom senso e curiosidade. Por que acreditar num livro escrito há mais de mil anos, quando o conhecimento humano era rudimentar? Por que pautar a vida em regras desenvolvidos em sociedades primitivas, patriarcais, conservadoras, xenófobas e preconceituosas? Será que Deus se preocuparia mesmo em especificar tabus alimentares? (É como se o Steve Jobs estivesse preocupado com a cor dos parafusos internos do iPhone). E mais, sendo ele tão poderoso, por que precisaria de qualquer tipo de intermediário (padres, pastores) para se comunicar com seus fieis? Não faz o menor sentido. Se Deus existe, não tem a menor possibilidade de ser como os padres ou pastores pregam. Se um dia você se vir na situação de Abraão, ouvindo a voz de Deus lhe dizendo para matar alguém, não dê ouvidos; procure um psiquiatra, urgente!

     Diante disso, é possível algum tipo de conciliação? Dá pra continuar acreditando em algum tipo de Deus, mas cultivando uma atitude cética, sem perder a coerência? Sim, acho que existe uma saída honrosa para este dilema. Ela consiste em empurrar Deus pra bem longe... lá para as origens do Universo, por exemplo. Se Deus apenas criou o Universo, se ele é uma espécie de força difusa e incognoscível permeando toda a matéria, nenhum cientista poderá provar que ele não existe. É perfeitamente racional acreditar nesse tipo de deus, e nada na nossa experiência cotidiana poderá depor contra a existência dele. Esse "deus" é diferente do tradicional, mas tem lá suas vantagens: ele não te cobra absolutamente nada. Ele não é como uma pessoa, não fica zangado, não tá nem aí para o que você apronta aqui na Terra. Ele apenas criou o Universo, ou é o próprio Universo, e nada mais. Somos pequenos demais para ter qualquer influência sobre ele. Achar que essa força universal se preocupa com você seria como imaginar que um ser humano conhecesse pelo nome cada uma das bactérias que abriga no intestino (uma dica: são alguns trilhões). Ou Deus não existe ou é tão grande que é como se não existisse. Não sei você, mas eu acho bem melhor assim.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Reforma na Educação (parte 3/3) – Nacionalização

Tamanho da fonte
+ + +

 

     Para melhorar a educação pública sem um aumento colossal nos gastos, deveríamos nos concentrar em três frentes de ação: 1) reforma dos currículos para ensinar o que realmente importa; 2) pesquisa e desenvolvimento de métodos de ensino mais eficazes; 3) com base nos dois primeiros passos, adotar o que funciona em toda a rede pública, de maneira uniforme. Os dois primeiros assuntos foram abordados em posts anteriores, e neste último texto da série tratarei do terceiro ponto.

     Uma vez que redefiníssemos o que é importante ensinar nas escolas, e também quais os melhores métodos para transmitir tais conhecimentos, o passo lógico seguinte seria difundir essas boas práticas. Não basta descobrir maneiras de melhorar o ensino e esperar que elas sejam adotadas voluntariamente em toda parte, apenas porque funcionam melhor. Por diversas razões (algumas das quais discutirei a seguir), quem trabalha com educação no Brasil resiste a certas mudanças. Seria preciso que o Governo Federal tivesse um papel mais ativo, mais centralizador das decisões relacionadas a educação. Conhecendo o histórico dos nossos governantes, centralizar qualquer coisa pode parecer uma receita para o desastre, mas vamos adiar um pouco o veredito, enquanto a defesa apresenta seus argumentos.

     Todo mundo sabe que algumas decisões funcionam melhor se tomadas em nível local (que ruas asfaltar na sua cidade), enquanto outras precisam ser tomadas em nível nacional (regras de trânsito, ou que moeda vamos usar). Por razões mais políticas que técnicas, a educação pública no Brasil acabou ficando dividida entre os governos Federal, estaduais e municipais. Isso traz algumas vantagens, como maior possibilidade de controle por parte da população e melhor adaptação a particularidades locais, mas também traz desvantagens, como menor economia de escala, mais burocracia e mais desigualdade na aplicação das verbas e nos resultados. Qual será o modelo mais adequado para administrar o sistema de educação no nosso país?

     Imagine que o Brasil é uma grande empresa e você é o novo chefe do setor de Educação. O dono da empresa, Sr. Povo, quer que você melhore drasticamente a qualidade do sistema educativo, mas sem gastar mais para isso! Revendo as contas da administração anterior, você se depara com um quadro curioso: o Governo está há décadas injetando recursos, patrocinando inúmeras pesquisas acadêmicas sobre educação, abrindo novas vagas, fazendo avaliações periódicas... mas na ponta do sistema os resultados simplesmente não aparecem. É como se a verba estivesse “vazando” ao longo das diversas curvas e juntas desse sistema complexo. Algo está errado, mas você ainda não sabe exatamente o quê.

     Confuso com tantos dados para analisar, eis que você se lembra de um velho provérbio: “panela que muitos mexem, ou sai insossa ou salgada”. Só pode ser isso! Todo aquele gasto, as pesquisas e as diretrizes, nada disso adianta porque, no fim das contas, cada escola e cada professor faz o que achar melhor! Se o objetivo é ter qualidade, o sistema atual desafia o bom senso, já que criar excelência educacional uma vez e expandi-la é muito mais fácil, barato e eficaz do que esperar que tal qualidade surja independentemente várias vezes. É por isso que até agora tivemos apenas exceções louváveis, aqui e ali: determinadas escolas públicas que se destacam nos vestibulares, ou mesmo professores excepcionais que conseguem mudanças louváveis em suas turmas de periferia, desafiando as estatísticas (e inspirando uma dinastia de filmes melosos) .

     Não precisava ser assim. Não precisávamos nos contentar com raras exceções boiando num mar de mediocridade (ou calamidade) educacional. Só que tudo tem seu preço, e o preço para ter a excelência pedagógica difundida no país inteiro não seria apenas financeiro (na verdade, a médio prazo, qualquer investimento nesse sentido seria incrivelmente lucrativo para o País). O preço seria sacrificar boa parte da autonomia atual das escolas e dos professores.

     Mas por que causa, razão, motivo ou circunstância eu estou culpando a liberdade dos professores? O fator determinante não seria simplesmente a má formação dada a essa classe? O que a liberdade tem a ver com a qualidade? Acontece que esses fatores estão intimamente ligados, mas nem sempre de maneira óbvia.

     Esse assunto é delicado, quase um tabu. É artigo de fé do establishment educacional brasileiro que o professor deve ter grande autonomia para o bom desempenho das suas funções. Reza a cartilha que o professor é quem sabe o que é melhor para suas turmas, ele sabe o que funciona ou não no ensino da sua matéria. E ninguém parece questionar essas suposições, que, no entanto, não tem nada de evidentes. Pelo contrário, a evidência e o bom senso apontam justamente na outra direção: o excesso de autonomia do professor gera resultados irregulares e insatisfatórios nas nossas salas de aula.

     Pense no que acontece atualmente numa sala de aula típica do nosso ensino público. Sabemos que o professor é mal pago e (geralmente) mal preparado. Apesar disso, espera-se que ele seja dedicado, conheça muito bem o conteúdo que a ser ensinando, tenha boa didática e ainda seja capaz de improvisar para contornar os mais diversos problemas de aprendizado dos alunos. Para fazer frente a esse desafio, ampla liberdade: o professor escolhe os livros didáticos que vai usar, dá sua aula como acha melhor e ninguém se mete. Na sala de aula, ele é o rei.

     Os resultados são os mais variados possíveis. Se o professor for bom, é uma beleza: ele domina o assunto, transmite o conhecimento de forma atraente, prende a atenção dos alunos, sabe improvisar quando necessário. Se o professor for ruim, a aula também será ruim, chata, confusa, uma perda de tempo. Mas qual a causa dessas diferenças? Basicamente, o talento e o esforço de cada professor. O bom professor costuma ser bom por seus méritos individuais, e não pela formação que recebeu. No entanto, a maioria dos que entram na carreira não são capazes de superar uma formação ruim, e acabam se tornando professores ruins.

     O que eu chamo de formação ruim? Ora, os professores não são ensinados a dar aula! Eles aprendem uma porção de teoria esdrúxula e tem que cumprir certa carga horária em estágios de treinamento em sala de aula, mas não aprendem, de forma técnica, a fazer o que se espera deles. E isso tem muito a ver com a heterogeneidade geral de currículos e métodos existentes, pois como não se sabe exatamente o que esses professores vão ensinar, ou a linha pedagógica adotada pela escola onde vão trabalhar, é quase impossível treiná-los de forma mais específica e prática.

     Do jeito que as coisas estão, é difícil saber se o professor tem mesmo autonomia ou se está simplesmente abandonado ao deus-dará. Tudo indica que tentamos “queimar etapas”: demos a liberdade antes de preparamos os professores para usá-la com eficácia, e ficou por isso mesmo. Se o Estado não investiu na formação do professor, não o treinou para o bom exercício das suas funções, então como o sistema poderia se beneficiar da tal “autonomia”? Defender a liberdade dos professores no quadro atual é fingir que está tudo bem, é ignorar que estamos atribuindo uma responsabilidade desproporcional a esses profissionais, que são a alma e a base de qualquer sistema de ensino.

     A meu ver, o ideal seria uma padronização também no treinamento dado aos professores. Uma vez desenvolvido um programa consistente de ensino para cada série escolar, a formação dos professores poderia se voltar especificamente para o papel que se espera deles nesse sistema. Eles seriam então capazes de entender a teoria por trás dos métodos de ensino adotados, e como tirar o máximo proveito desses métodos durante as aulas. Seria um sistema consistente, mais estruturado, menos dependente do talento individual. Em outras palavras, mais técnica e menos filosofia, como já ocorre em outras profissões maduras (como a Medicina, modelo que considero ideal para a Pedagogia seguir). Não haveria espaço para teorias pseudocientíficas de aprendizado, nem para baboseiras político-sindicais na formação dos novos professores. Eles se preocupariam menos em planejar a próxima greve, e mais em planejar a próxima aula (se bem que menos planejamento complexo seria necessário).

     A crítica que faço não é contra os professores em si, e sim contra nosso sistema de ensino, que nunca os valorizou de verdade. A situação chegou a tal ponto que as causas dos problemas foram confundidas, misturadas com politicagem barata, distorcidas para servir sabe-se lá a que interesses, e hoje em dia pouco se fala em reformas profundas na Educação. Só se pensa em melhorias graduais, tímidas: investir um pouquinho mais nisso, dar um aumentozinho de salário aqui, pagar uma especialização ali.

     Os próprios professores, devido a um condicionamento há muito estabelecido na profissão, defendem com unhas e dentes a liberdade desfrutada. Isso é até compreensível: uma classe tão explorada e mal paga (considerando a enorme importância social do seu trabalho) não admite mais a perda de qualquer benefício. No entanto, essa liberdade que a classe dos professores vê como uma vantagem e uma prerrogativa necessária é também parte importante do problema.

     Essa tradição de autonomia se apoia em crenças como “cada criança é diferente”, “cada turma é única”, e “só o professor consegue perceber essas coisas e adotar as melhores estratégias”. As duas primeiras são verdadeiras (apesar de óbvias e pouco relevantes na prática), mas a terceira é um tanto forçada. Claro que os professores são bem intencionados, mas isso não garante que eles de fato saibam a melhor forma de ensinar sob circunstâncias variadas. Na verdade, a grande variabilidade dos alunos pode ser um argumento contra a autonomia do professor! Um grupo de especialistas bem formados, baseados em décadas de pesquisa e experiência prática, certamente teria mais condições de planejar uma boa aula (que leve em conta diversos tipos de aluno ) do que qualquer professor individual, mesmo dos mais experientes.

     Já a autonomia dos Estados, municípios e escolas provavelmente é baseada no mito das “especificidades locais”. Como se a Matemática do Norte fosse diferente da do Sul! OK, é óbvio que “a realidade do aluno” deve ser levada em conta. Mas isso não muda o fato de que a maior parte do conteúdo de qualquer disciplina é invariável, não muda de uma região para a outra. Além disso, poderíamos perfeitamente ter uma base nacional uniforme mas manter algum espaço (uns 10%) para os conteúdos regionais.

     Quando um sistema não funciona bem e não responde a décadas de mudanças superficiais, é preciso questionar até mesmo os fundamentos mais básicos. Mesmo que a Educação estivesse funcionando bem no Brasil, isso não significaria que nenhuma reforma seria necessária. O mundo evolui constantemente, os países competem entre si, e um dos recursos mais importantes para sustentar o progresso nacional é uma população bem educada.

     A verdade é que uma alta qualidade de ensino num sistema educativo liberal como o nosso só seria possível com uma formação excelente para a maioria dos professores. Aí sim, eles saberiam o que fazer com a liberdade e os resultados seriam muito bons, como já acontece em alguns países desenvolvidos. Poderíamos copiar esse modelo e alcançar a mesma qualidade? Sim, mas uma reforma desse tipo levaria mais tempo e custaria muito mais dinheiro do que a que eu proponho aqui, que consistiria em:

  1. Centralizar todo o gasto com Educação pública apenas no Governo Federal, deixando a fiscalização a cargo da população e da imprensa; acabar com todos os órgãos estaduais e municipais de educação.

  2. Uniformizar nacionalmente os currículos e materiais didáticos. Isso geraria economia de custos e favoreceria a qualidade.

  3. Revisar periodicamente os métodos e conteúdos, para manter somente o que existe de melhor e mais eficaz, devidamente embasado em pesquisas e estatísticas.

  4. Com a economia resultante, melhorar a formação dos professores e aumentar o controle sobre a profissão, incluindo uma prova de habilitação obrigatória (estilo a da OAB para advogados).

  5. Adotar uma política salarial mais justa, com piso nacional atraente e incentivos financeiros para permanência em regiões de maior carência de bons professores (pagar os melhores professores para irem aos piores lugares).

     Uma reforma assim poderia ser feita em 10 ou 15 anos, incluindo toda a pesquisa de base, programas piloto e mudanças legislativas (inclusive na Constituição). Todos sabemos o que não queremos mais nas nossas escolas. Chega de aulas mal dadas, livros didáticos com erros, conteúdos desestimulantes, interferências políticas e ideológicas, professores doutrinando alunos num esquerdismo ingênuo, aprovação automática, avaliações de faz de conta, analfabetismo funcional e diferenças absurdas na qualidade entre escolas. Se lembrarmos que o foco da educação são os alunos, e não os professores, algumas soluções se apresentam naturalmente. Por mais que o remédio pareça amargo, ainda é melhor tomá-lo do que permanecer doente.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Reforma na Educação (parte 2/3) – Métodos

Tamanho da fonte
+ + +

 

Bush_na_escola 

      What the hell?! O que o George W. Bush está fazendo num post sobre educação no Brasil? Calma, logo tudo será explicado. A cena acima ficou famosa: em 11 de setembro de 2001, o presidente dos EUA recebe a notícia dos ataques terroristas enquanto visitava uma escolinha infantil (e continua lendo o livro com as crianças, como se nada de grave estivesse acontecendo). O que pouca gente sabe é o que diabos Bush foi fazer lá afinal.

      Não vou prolongar o mistério: Bush estava lá promovendo uma das primeiras leis importantes aprovadas no seu mandato, conhecida como "No Child Left Behind". Essa lei condicionou o repasse de verbas federais para a educação nos estados a algumas exigências, principalmente: 1) adoção de testes padronizados para acompanhar o progresso das escolas e dos estudantes; 2) embasamento científico para quaisquer programas e métodos de ensino adotados pelas escolas.

      A primeira dessas condições é bastante lógica, e muitos países adotam medidas similares. O Brasil já está no caminho certo, com bons programas de avaliação como Saeb e Enem. A segunda condição é mais inusitada, e por isso mesmo mais interessante. Como assim, "embasamento científico" na educação? Você pode pensar que isso é uma trivialidade, já que todo método de ensino utilizado tem algum tipo de embasamento teórico. Acontece que não é qualquer embasamento teórico que se qualifica como "científico", especialmente quando está em jogo a formação das nossas crianças. A tal lei americana é bem estrita quanto a isso, por isso cito alguns trechos:

"SCIENTIFICALLY BASED RESEARCH: research that involves the application of rigorous, systematic, and objective procedures to obtain reliable and valid knowledge relevant to education activities and programs (...) evaluated using experimental or quasi-experimental designs in which individuals, entities, programs, or activities are assigned to different conditions and with appropriate controls to evaluate the effects of the condition of interest (...) ensures that experimental studies are presented in sufficient detail and clarity to allow for replication (...) has been accepted by a peer-reviewed journal or approved by a panel of independent experts through a comparably rigorous, objective, and scientific review"

     Bush pode ter feito muita besteira em seu governo, mas é inegável que essa lei que foi uma baita bola dentro. A mensagem da lei não é  um autoritário "usem o método que nós indicarmos", mas sim "podem usar o método que quiserem, desde que provem que ele funciona". A liberdade é preservada, mas a coisa passa a ser mais controlada, dada a enorme importância da educação para qualquer  sociedade.


     Mas tudo isso não será exagero? Educação não é muito mais uma delicada arte do que uma coisa técnica e fria? Pode até ser, mas convenhamos que arte sem técnica não funciona. Vejamos uma analogia: quando a indústria farmacêutica quer lançar um novo medicamento, ele não precisa passar por várias etapas de teste, um processo que leva anos e custa milhões? A sociedade exige isso, afinal o que está em jogo é a segurança e eficácia do medicamento, e portanto a saúde das pessoas. Ninguém afirma que o rigor técnico tira a importância do "lado humano" da Medicina, e o mesmo deveria valer para o ensino. Você não acha que a educação das crianças é tão importante quanto a saúde? Por que deveríamos então aceitar que qualquer método educacional fosse adotado em nossas escolas sem passar por testes rigorosos?

      Isso nos remete à questão: que métodos atualmente em uso de fato passaram por testes sérios? Como podemos saber se determinado método de ensino funciona melhor ou pior do que outro? Mais uma vez, os EUA foram pioneiros. No final da década de 60, o grande Project Follow Through foi criado para avaliar os resultados de um programa anterior de apoio socio-educaional para crianças pobres (Head Start) e também para testar a eficácia de vários métodos concorrentes de ensino existentes no país. Essa foi provavelmente a maior avaliação sistemática desse tipo já realizada no mundo: durou três décadas, envolveu cerca de 70.000 crianças em 170 comunidades pobres dos EUA e teve um custo total estimado em 1 bilhão de dólares.

     E quais foram os resultados principais desse gigantesco experimento educacional? Surpresa! Um método pouco conhecido ou difundido na época, chamado Direct Instruction, foi o campeão incontestável. Os modelos concorrentes tiveram resultados pífios, por vezes desastrosos. Os gráficos abaixo resumem a situação:

     Ahh, então com certeza os métodos que usamos hoje são muito melhores, inspirados nesse método vencedor da década de 70, não é? Não. Os métodos ineficazes continuaram em voga (talvez com outros nomes), não só nos EUA, como na maior parte do mundo, inclusive no Brasil. A triste realidade é que a escolha do método de ensino não se baseia em critérios científicos: a tradição ou a última moda é o que define as escolhas. Os métodos mais adotados estão cheios de palavras bonitas, como "autonomia", "foco no aluno", "aprendizagem participativa", "auto-estima" e assim por diante.. cheios de boas intenções, mas sem qualquer apoio experimental. (A propósito, não é só na Educação que métodos bizarros e sem evidência científica conquistaram um lugar ao sol: o exemplo mais gritante continua sendo a Homeopatia, que consiste em puro placebo açucarado vendido como remédio, mas é especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina)

     Voltando ao Bush naquele fatídico 11 de setembro, ele estava deliberadamente tentando promover a velha e desprezada Direct Instruction, visitando uma escola que seguia essa abordagem e lendo um livro infantil ("The Pet Goat") do Prof. Engelmann, criador do método. Mas como funciona esse método campeão, afinal? E por que não foi adotado em massa depois dos resultados impressionantes obtidos? A resposta para a primeira pergunta também responde boa parte da segunda. Vamos dar uma olhadinha mais de perto no método..

     Para quem não teve paciência de ver o vídeo, um resumo: numa aula de inglês, a professora está passando um exercício de spelling. Ela dá instruções passo-a-passo para os alunos, que devem estar sempre sincronizados e dar respostas em uníssono. Cada frase da professora está escrita na cartilha, e os alunos também já estão visivelmente "maceteados" quanto à dinâmica da aula. O método é mecânico, repetitivo, há um roteiro rígido que o professor deve seguir, e as crianças devem reagir como robôs. E daí? O importante é que funciona!

      Conhecendo a natureza do método, era previsível a resistência dos professores e de todo o establishment educacional. Eis a resposta "elegante" do Prof. Engelmann: "Não damos a mínima para o que o professor pensa, o que o professor sente (...). No seu tempo livre, o professor pode odiar [o método]. Não importa, desde que eles o sigam". Ou, como diria o ex-Ministro da Educação Paulo Renato (recém-falecido): "o foco da educação é o aluno e não os sindicatos de professores".

      Não sei como anda a aplicação dessa lei nos EUA, mas sei que eu gostaria de ver algo assim aplicado no Brasil. Por aqui, certos teóricos/educadores já falecidos (alguém pensou em Paulo Freire?) são endeusados, e seus métodos propagados como uma maravilha. Tais métodos não são defendidos porque funcionam melhor ou pior que outros (aparentemente não existem dados a respeito), mas sim por opções ideológicas e preferências pessoais dos professores. Isso tem que acabar. Já está na hora de a Pedagogia abandonar sua tradição pré-científica e amadurecer como uma verdadeira profissão, que promete e entrega resultados consistentes.

     Houve um tempo em que a Medicina também era praticada com bases teóricas precárias (usava-se sangrias porque se acreditava que muitas doenças eram causados por "excesso de líquido" no corpo); hoje ela está quase totalmente apoiada em ciência de verdade, e os tratamentos e remédios antigos são substituídos quando surgem outros mais eficazes e seguros. Que tal olharmos a educação da mesma forma? Temos a obrigação moral "tratar" as mentes de nossas crianças e jovens com algo que funcione com certeza, e não apenas com remedinhos caseiros improvisados. Não estou dizendo que métodos atuais não funcionam! É claro que funcionam em alguma medida, a questão é que poderiam funcionar muito melhor, sem que precisássemos gastar uma fortuna ou esperar por soluções tecnológicas definitivas (como o download direto ao cérebro visto em Matrix).

     É evidente que a educação no Brasil tem muitos problemas, a maioria derivados da simples falta de investimento do governo. Mas ficar o tempo todo só batendo na mesma tecla, reclamando por melhores salários para os professores, merenda de melhor qualidade, etc.. simplesmente não vai resolver! Não há uma conspiração governamental para manter a educação de qualidade baixa, isso não interessa nem ao capitalista mais selvagem (pode interessar a alguns ditadores patéticos, isso sim). Existem problemas que não se resolvem só com dinheiro, mas sim com uma reorientação de esforços na direção correta. A educação no Brasil precisa muito mais desse tipo de mudança do que de mais investimentos.

     Será que falta pesquisa em educação no nosso país? Eu diria que não, já fazemos muita pesquisa sobre isso. Temos várias revistas (ditas científicas) especializadas, e todo ano ocorrem  inúmeros congressos, simpósios e encontros a respeito. O que precisamos urgentemente é de mais pesquisas quantitativas (ao invés de somente qualitativas), pesquisas que apoiam ou refutam metodologias concretas de ensino, com rigor estatístico, ou seja, exatamente o tipo de pesquisas que a lei americana tentou incentivar na marra. Esse tipo de pesquisa não custa tão mais caro e é muito mais útil! Precisamos de uma lei assim também no Brasil. Não que uma lei sozinha vá mudar da noite pro dia os paradigmas inadequados do nosso sistema educativo, mas como diria o Tirica, pior do que tá, não fica!

sábado, 18 de junho de 2011

Reforma na Educação (parte 1/3) - Conteúdos

Tamanho da fonte
+ + +


      O mundo está mudando, e rápido. Mas algumas coisas nele parecem ter parado no tempo, e uma delas é o ensino formal praticado nas escolas (outra é o Sílvio Santos, mas isso não vem ao caso). Tanto o conteúdo como os métodos de ensino evoluem num ritmo estranhamente lento (compare com a medicina, a indústria ou a agricultura). Quando se fala de Educação pública no Brasil, é inevitável pensar nos inúmeros problemas que a afligem, geralmente decorrentes da falta de investimento por parte dos governos. Mas não vou aqui tratar desse tipo de problema, e sim de algo mais geral, que afeta até as melhores escolas particulares do País: o problema do currículo escolar, o conteúdo ensinado aos alunos ao longo do ensino fundamental e do ensino médio. Afinal, por que grande parte do que a gente aprendeu na escola parece tão inútil hoje em dia?

      Se você precisasse da informação “quem foi o 3º Presidente da República do Brasil?”, o que faria? Se tentasse consultar sua memória, provavelmente não saberia o que responder, e mesmo se tivesse um nome em mente (Floriano Peixoto?), dificilmente teria certeza. Teria que pesquisar a informação na Internet ou num livro. No entanto, em algum momento da sua vida escolar, você soube quem foi o 3º Presidente (Prudente de Morais, de 1894 a 1898). Essa informação desapareceu da sua mente, como quase todo o conhecimento factual que você decorou ao longo de anos na escola. Que lástima!

     Mas o problema não foi ter esquecido toda essa massa gigantesca de informações (afinal, ela continua disponível e facilmente acessível por por nós nos livros e na Internet), nem foi o “espaço” que esse tipo de informação “ocupou” temporariamente no nosso cérebro, mas sim o tempo que foi investido pelo sistema educacional em tentar ensinar essas coisas para nós. O “espaço mental” é um recurso praticamente ilimitado, mas o tempo em sala de aula não! Temos só alguns anos para aprender conhecimentos e habilidades que, em larga medida, determinarão nossa chance de sucesso no futuro.

      Isso nos remete à questão: O que nossas crianças deveriam estar aprendendo na escola? A tabuada completa? A classificação das orações subordinadas? As características das classes de seres vivos? Os afluentes do Amazonas? Nada disso. As crianças deveriam aprender coisas mais úteis, menos chatas e menos esquecíveis. Vamos dar uma olhada no problema atual e em como remediá-lo.

Razões para mudar (ou "Análise da problemática")

      Vejamos o caso das duas disciplinas consideradas mais fundamentais, Português e Matemática. Em Português, as habilidades importantes são só duas: ler e escrever (a “interpretação de texto” faz parte da leitura). É claro que elas tem que ser aprimoradas progressivamente, permitindo que o aluno leia e escreva textos cada vez mais complexos, e isso leva mesmo bastante tempo. O que eu defendo é que todo o conteúdo de Português a ser passado para o aluno tem que estar diretamente ligado ao domínio dessas duas habilidades primordiais.

     Como decidir que partes do conteúdo são essenciais e que partes são basicamente inúteis? No caso do Português, é bem simples: pegue um adulto culto, que saiba ler fluentemente, e avalie o que ele sabe sobre língua portuguesa com alguns testes simples, que cubram por alto todo o conteúdo de Português até o final do ensino médio. Provavelmente esse indivíduo já terá esquecido muita coisa nessa matéria, e o ponto importante é justamente o que ele não sabe ou não lembra mais: o esquecimento daquelas inúmeras regras e classificações obviamente não interferiu na capacidade de ler e escrever bem, portanto essa parte do currículo escolar poderia ser perfeitamente eliminada! Repita o teste com mais algumas pessoas e você verá um belo padrão emergindo.

      Quanto à Matemática, pense um pouco a respeito. Quantas vezes você precisou usar uma equação de 2º grau depois do vestibular? A menos que você tenha se formado em uma área relacionada (alguma Engenharia, por exemplo) ou andou estudando para certos concursos, você não precisou mais desse tipo de equação. Mas você ainda precisou de algumas coisas bem básicas  da matemática, independentemente do rumo que seguiu na vida. Em níveis decrescentes de utilidade, deve ter sido mais ou menos o seguinte: as quatro operações fundamentais, frações e porcentagens, noções de probabilidade, regra de três simples, uns poucos tópicos de geometria plana, noções de conjuntos, equações de primeiro grau. Um repertório nada impressionante, perto de tudo aquilo que você chegou a aprender! (Para refrescar um pouco sua memória: inequações, equação do segundo grau, sistemas, matrizes, logaritmos, juros compostos, geometria analítica, geometria espacial...).

      Nas outras matérias a situação é parecida. Temos conteúdo inadequado e excessivo em todas elas. Esse imenso conteúdo é apresentado em série, no melhor estilo “linha-de-montagem”, dando a impressão de que o processo está indo muito bem, de que os professores estão ensinando e os alunos estão aprendendo (isso é “confirmado” pelas avaliações periódicas), e de que o tempo está sendo bem aproveitado, afinal, trabalha-se praticamente no limite, sendo muito difícil tentar comprimir mais conteúdo nos currículos.

 
Mafalda, de Quino


      Não é só uma questão de tempo mal utilizado aprendendo coisas irrelevantes. É uma questão de chatice. Estamos forçando os alunos a estudar coisas que eles não querem, pelas quais não se interessam (e quem poderia culpá-los por isso?), estamos de fato condicionando muitos estudantes a ter aversão pelo estudo, com consequências terríveis para o futuro deles (e para nossa economia e segurança pública). Várias coisas podem tornar o ensino chato, mas o assunto em si é uma das principais: a criança só vai gostar do que conseguir aprender, e só vai aprender o que for capaz de atiçar sua curiosidade. Assuntos artificiais, sem conexão com o cotidiano ou com as questões que realmente intrigam os alunos, são uma aberração e precisam ser substituídos por algo melhor.

Causas do problema (ou de sua persistência nos dias de hoje)

      As causas dessa ênfase absurda no conteúdo enciclopédico certamente são variadas, e não tenho conhecimento para reconstituir um quadro explicativo completo. Mas vou chamar a atenção para um dos fatores que considero crucial: influência da Universidade. Os cursos superiores querem determinado perfil de aluno, o que é perfeitamente compreensível. Se dou aula de Cálculo I na faculdade, adoraria que meus alunos já trouxessem uma base muito sólida de Matemática. Os professores dos outros cursos também tem lá suas preferências. E as universidades tem liberdade para criar seus processos seletivos. Já viu aonde quero chegar? Os cursos superiores acabam impondo suas vontades nos vestibulares, e a exigência de conhecimento enciclopédico se propaga “para baixo” no sistema e afeta praticamente todos os níveis anteriores de ensino.

      Acontece que escola  não existe só para preparar ou selecionar alunos para a universidade! Infelizmente, o sistema educacional virou praticamente isso: uma máquina extremamente ineficiente, lenta e cara trabalhando para  selecionar os estudantes com o perfil esperado pelos cursos superiores (leia-se: alguém com um mínimo de inteligência e, principalmente, disciplina e paciência suficientes para estudar por anos a fio). Ninguém precisa de diploma superior algum para ser bem-sucedido como empresário, ator, bombeiro, agricultor, vendedor, artista plástico, músico, atleta, policial ou escritor. Muito menos para funcionar adequadamente em sociedade nos papéis de eleitor, cônjuge, pai e consumidor. Logo, a escola não tem que se subordinar às preferências arbitrárias da Universidade.

      As universidades, como culpadas de boa parte dos problemas de conteúdo nas escolas, deveriam urgentemente rever seus padrões antiquados de seleção. O Governo Federal deu um passo muito interessante nessa direção, através do Enem, de teor muito menos conteudista que os vestibulares tradicionais. Essa prova, aplicada desde 1998, foi provavelmente a melhor mudança que já aconteceu no ensino médio brasileiro. Além de excelente instrumento de avaliação e comparação (gerando dados preciosos para o Governo e para toda a comunidade escolar), agora permite ao estudante se candidatar para diversas instituições simultaneamente, mesmo em estados diferentes. À medida que esse sistema for adotado por mais universidades, o ensino escolar tende a se adaptar (esse é um dos objetivos declarados do Governo), mudando para melhor no importante quesito dos conteúdos.

Como deveria ser (ou "A solucionática")

      Muito bem, digamos que a sociedade decida por uma reforma efetiva do ensino, eliminando boa parte desse excesso de conteúdo nos currículos. Certamente não queremos diminuir o tempo das crianças na escola (hoje em dia só se fala em aumentar esse tempo), então o que colocaríamos no lugar dos conteúdos descartados?

      Acredito que boa parte do tempo liberado deveria na verdade ser investida nos conteúdos originais remanescente. Ou seja, trabalhá-los de maneira mais completa e aprofundada, permitindo que os estudantes realmente  dominem tais conteúdos e saibam como usá-los. Além disso, é preciso focar nas coisas que a pessoa aprende e não mais esquece, coisas que são úteis fora da escola, no trabalho, e para o resto da vida. Essas coisas são basicamente atitudes, habilidades, técnicas e respostas para perguntas interessantes.

      Todo mundo tem uma noção intuitiva do tipo de atitudes que queremos desenvolver nas nossas crianças e jovens: confiança, auto-estima, atenção, respeito pelo próximo, curiosidade, paciência, cooperação. Não estou defendendo que essas coisas sejam “ensinadas” em novas “matérias”. O ensino bem feito já promove essas atitudes, quase como subprodutos bem-vindos, mas sempre há espaço para tornar o processo mais controlado, mais garantido. A Psicologia tem muito a dizer sobre condicionamento para tais atitudes, e sobre o tipo de ambiente social e intelectual que promove as características que queremos nos cidadãos do futuro. Esse conhecimento só precisa ser melhor transferido para o sistema escolar.

      Quanto às habilidades relevantes, podemos destacar: ler, escrever, interpretar textos, usar a matemática no dia-a-dia, compreender gráficos e tabelas, pesquisar informações em livros e na Internet (e não apenas colar o que aparece no primeiro resultado do Google!), entender como se dá a aquisição do conhecimento em diferentes áreas, pensar cientificamente, detectar falácias e falhas de argumentação, falar em público sem medo, apresentar ideias e soluções de forma persuasiva, relacionar conhecimentos de diferentes áreas, cuidar da própria alimentação e saúde. Os Parâmetros Curriculares Nacionais são um bom exemplo de teoria bem intencionada. Eles focam corretamente na aquisição de habilidades pelos alunos, e trazem um lista bem sensata e completa de habilidades em cada área. Só que boas intenções não bastam. É preciso adotar métodos de eficácia comprovada (ou desenvolvê-los, se necessário) para explorar efetivamente a maravilhosa capacidade mental latente nas crianças. A ideia de que as habilidades viriam naturalmente a partir do ensino dos conteúdos acaba não se concretizando na prática das escolas. Um dos motivos é que temos conteúdos demais para pouco tempo (se os conteúdos fossem suficientemente explorados e devidamente aprendidos, é provável que as habilidades relacionadas de fato “emergissem”).

      Voltando aos  conteúdos, sempre que for realmente necessário que os alunos aprendam fatos e conceitos (uma área fértil para a tradicional decoreba), deveríamos tentar introduzir isso através de perguntas interessantes, que explorem curiosidade deles. Não simplesmente despejar o conhecimento em suas mentes, só porque “está no programa”! O cérebro “prefere” pensar por meio de narrativas, de motivações, de causa e efeito. Uma informação desconexa do tipo “o número atômico do oxigênio é 8” é inútil, o cérebro sabe disso e fará questão de esquecer mais rapidamente possível! As ciências naturais são especialmente propícias para instigar perguntas interessantes (pelo menos para mim), como “por que o céu fica avermelhado no pôr-do-sol?”, “por que o sangue para de escorrer de uma ferida, se ainda tem muito sangue no corpo?”, “por que é a Terra que gira ao redor do Sol e não o contrário?”, “por que a bolinha-de-gude para mesmo quando não bate em nada?”. Ao tomar conhecimento dos porquês, fica muito mais fácil guardar a informação.

      Com o espaço criado pela eliminação de algumas partes irrelevantes, poderíamos até mesmo introduzir novas matérias. Por exemplo, educação musical (já existe uma lei prevendo isso) e educação alimentar/culinária (pense em quantos adultos hoje tem problemas do coração ou são obesos porque nunca foram devidamente educados sobre comida, ou quantos comem em fast-foods e pedem pizza simplesmente porque nunca aprenderam a cozinhar decentemente). Introduzir alguns conhecimentos novos não contradiz a minha defesa de menos conteúdo irrelevante no ensino. A educação básica precisa ser o mais generalista possível, para proporcionar às crianças o direito de escolher seu próprio caminho para o futuro.

      Precisamos preparar nossos estudantes para um futuro imprevisível. Não temos como saber que conhecimentos serão os mais relevantes daqui a 20 ou 30 anos. Mas uma coisa é certa: não estamos mais na era da informação bruta. O que conta hoje em dia não é o saber enciclopédico (nem mesmo um diploma), e sim criatividade e a habilidade de obter informações relevantes e usá-las de uma maneira que crie valor. Ou nosso sistema educacional se adapta a essa tendência, ou o Brasil vai continuar deitado eternamente em berço esplêndido, segurando o diploma de país do futuro.

domingo, 8 de maio de 2011

Por uma reforma ortográfica de verdade

Tamanho da fonte
+ + +

charge_renato_machado_Reforma_Ortografica

(charge de Renato Machado)

     Joãozinho está na alfabetização. Aula de ditado. A Professora começa: "A casa é azul". Joãozinho é um dos melhores alunos da classe e escreve confiante: "A caza é azul". Na correção, a Professora explica a Joãozinho que casa se escreve com s, embora azul seja com z mesmo. Joãozinho fica confuso, não entende o motivo da distinção, e a Professora não sabe explicar.

     Você também passou por isso. A situação que descrevi acima é emblemática dos nossos primeiros problemas com a ortografia. O mais grave é que esses problemas nunca somem completamente, mesmo entre adultos cultos. Mas se é tão normal, por que eu deveria me preocupar com isso? Talvez porque a maior parte dessas dificuldades seja na verdade bem fácil de resolver (e não estou falando de substituir "A Voz do Brasil" por dicas diárias do Prof. Pasquale).

     Toda solução começa pela análise das causas do problema. No nosso caso, as duas mais comumente lembradas são o ensino de má qualidade e a falta do hábito de leitura na nossa população. OK, essas causas existem e sem dúvida precisam ser combatidas, mas até os mais otimistas dirão que tal combate levará décadas. Será que, além de nos empenharmos no "upgrade" do usuário, não valeria a pena olharmos para o outro lado da questão, a língua em si?

     Será que nossa língua é fácil de escrever? As regras da ortografia são claras, fazem sentido? Por que paraquedas não tem hífen mas para-raios tem? Por que o viagem é com g, se viajar é com j? Por que o x às vezes tem som de ch, outras vezes tem som de z e outras ainda tem som de cs? Por que existe o ç, se ele sempre tem som de s? Por que algumas palavras começam com h, se nessa posição ele não tem som? Existem inúmeros exemplos de inconsistências desse tipo na nossa língua. Não precisava ser assim, não acha? Mas então, como deveria ser? Veja se você concorda com as seguintes mudanças na nossa ortografia:

C -> Passaria a ter somente o som de k, nunca de s. Assim: certo -> serto, cimento -> simento.
G -> Manteria somente o som que tem nas sílabas ga e go. Nos casos em que tem som de j, seria substituída por este: gelo -> jelo, colégio -> coléjio. Gu não seria mais usado, salvo quando o u for pronunciado: guerra -> gerra, guarda -> guarda
H -> Sumiria do início das palavras, permanecendo somente nos dígrafos lh e nh. Assim: helicóptero -> elicóptero, homem -> omen, alho -> alho
M -> Para resolver seu conflito com o n, sumiria do final das palavras e de antes de p e b. Logo: tamm -> tann, ambíguo -> anbíguo
S -> Sempre com som de s, substituindo totalmente o ç, e substituindo x e c quando tiverem som de s. Abolição do dígrafo ss. Exemplos: açúcar -> asúcar, excesso -> eseso
X -> Mantido somente onde tiver som de ch, como em coxa, enxada. Substituiria completamente o ch: chá -> xá, chiclete -> xiclete. Onde soa como cs (tóxico, axioma), seria substituído por cs mesmo (tócsico, acsioma)
Z -> Substituiria s e x onde estes tiverem som de z.  Exemplos: casa -> caza, exato -> ezato

     Esses são exemplos de alterações bem óbvias, que atacam diretamente algumas das principais causas de confusão do português escrito. Mudanças em outros aspectos da escrita (como o uso do hífen, que atualmente pode ser "resumido" nesta incrível tabela) também são necessárias, sempre visando a acabar com as ambiguidades e exceções descabidas da língua escrita (não proponho mudanças específicas por falta de conhecimento aprofundado). A pontuação não mudaria em nada, nem o nome das letras, nem nada na língua falada. O objetivo é que a criança (ou o estrangeiro), depois de aprender a falar nossa língua, tenha o mínimo de dificuldade possível para transpor a barreira da escrita.

     Os benefícios de uma tal mudança seriam enormes e começariam quase de imediato. Nossas crianças aprenderiam a escrever com fluência mais rapidamente do que hoje em dia, perderíamos menos tempo pensando como-é-mesmo-que-se-escreve e consultando dicionários, menos pessoas sofreriam discriminação por "escrever errado", mais estrangeiros se interessariam em aprender o português. No início a nova forma de escrever pareceria estranha, mas logo as pessoas concordariam que ela é melhor e mais fácil.

     A língua é tida como um "organismo vivo", que se modifica e se adapta com o tempo, de acordo com os usos que os próprios falantes (e escreventes) fazem dela. Isso pode parecer uma boa coisa, uma tendência ao aprimoramento da língua e sua adaptação ao ambiente social em que ela é usada. Teoricamente, até os aspectos mais estranhos da nossa língua tem lá sua razão de ser, sua "utilidade" (do contrário, não estariam presentes na língua moderna). Não deveríamos nos preocupar em interferir no rumo "natural" que a língua segue. Vejamos se esse argumento resiste a uma análise um pouco mais detida.

     Em primeiro lugar, boa parte das estranhezas da língua simplesmente não tem uma boa razão para existir. Elas podem resultar de coisas como erros de cópia, diferentes interpretações sobre como escrever palavras importadas de outras línguas, preciosismo histórico, e assim por diante, mandando pra escanteio a uniformidade e a praticidade do sistema ortográfico.

     Em segundo lugar, a "adaptabilidade" da língua (que poderia ao longo do tempo minimizar alguns problemas) já não funciona tão bem quanto antes. Com a alfabetização de quase toda a população e a difusão dos meios de comunicação de massa, o ritmo de evolução de uma língua muda muito. Atualmente, talvez surjam palavras novas muito mais rapidamente que antes, mas de resto a língua vai se tornando mais e mais "engessada", fixa nas regras já existentes, principalmente na modalidade escrita. Presa aos padrões de certo e errado, a língua deixa de mudar espontaneamente. Quando se chega a esse ponto, a menos que uma iniciativa deliberada faça mudanças na estrutura, a língua permanecerá fossilizada.  (Podemos notar no "internetês" atual, além do uso excessivo de abreviaturas e gírias, tendências de substituições de letras bem parecidas com as que estou defendendo)

     Eis que surgem as reformas ortográficas, como uma tentativa de adaptar as regras oficiais às pequenas mudanças espontâneas que "fugiram do controle" ao longo de décadas de uso. Quem já se familiarizou com o recente Acordo Ortográfico (assinado em 1990, em vigor no Brasil desde 2009) viu que pouca coisa mudou. O objetivo principal desse acordo foi uniformizar a ortografia entre os países de língua portuguesa. A necessidade de reformar a ortografia do Português (e de muitas outras línguas, mas isso não é problema nosso) existe desde muito tempo, mas não tem a ver com a questão menor de uniformizar grafias entre países, afinal as diferenças nunca atrapalharam a comunicação eficaz. Se é para fazer mudanças deliberadas, de cima pra baixo, que elas venham para facilitar a vida de quem usa a língua, e resolver os problemas mais óbvios que encontramos no uso diário e no ensino. A questão é importante demais para ficar nas mãos de uns poucos doutores da Academia Brasileira de Letras; já é hora de ampliar o debate e ver quem leva a melhor, se a tradição ou a razão.

     Como muita gente, eu já pensava vagamente em alguma reforma ortográfica que simplificasse de verdade as coisas, e fiquei muito feliz ao topar com o site do movimento Acordar Melhor, uma ótima iniciativa do Prof. Ernani Pimentel (você pode vê-lo nesta entrevista no programa do Jô), e fonte de inspiração principal para este post. No site você encontrará argumentação da melhor qualidade e poderá assinar o manifesto virtual em prol de uma reforma ortográfica significativa e racionalizante. Também me inspirei nas propostas (bastante radicais) do grupo Alfabeto sem Amarras, embora discorde de alguns pontos. O importante é estimular o debate. Pense a respeito, forme uma opinião, discuta com seus amigos e professores. A democracia e a educação do nosso País só tem a ganhar com essas atitudes.


P.S: Depois de praticamente finalizado o texto, achei outro post sobre o assunto, muito interessante e bem-humorado, no blog Viagem e História. Não tenho a pretensão de ser original, só quero ajudar a engrossar o coro dos que pensam a respeito e acham que a nossa ortografia merecia uma reforma melhor.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Contra o Twitter

Tamanho da fonte
+ + +
   
    Se tem uma coisa que eu não entendo na história recente da internet é o sucesso do Twitter. Qual a utilidade desse maldito "microblog" afinal? Convido você a analisar brevemente alguns prós e contras desse recente fenômeno da Internet mundial:


     Acredite, eu tentei ser imparcial na tabela acima. Como toda mente científica, gosto de números, por isso fui atrás de estatísticas para melhor entender o fenômeno Twitter. Alguns dados recentes (março de 2011) divulgados no blog oficial do Twitter: Média de 140.000.000 de tweets por dia, e 460.000 novas contas por dia. Impressionante, não? 
     Para minha tristeza, o Brasil parece ser o país onde essa aberração é mais popular (em percentual de pessoas com acesso a internet que acessam o Twitter):



     Mas todos esses números não dizem muita coisa, são apenas dados brutos. Para um verdadeiro raio-X diagnóstico do Twitter, é preciso procurar em outras fontes. Aí sim encontramos dados mais interessantes, como este resultado de um  singelo estudo feito pela firma americana PearAnalytics:

Classificação de uma amostra aleatória de 2.000 tweets, coletados ao longo de 2 semanas. "Pointless babble", na classificação dos autores, são aquelas mensagem do tipo "Estou comendo um sanduíche agora". O relatório completo está disponível no site da empresa.



     Chamo a atenção para os 40,5% de besteirol inútil, coisas que provavelmente nem a mãe do usuário teria interesse em saber. Claro que esse resultado não surpreende ninguém que já tenha experimentado o Twitter! A segunda parcela mais importante dos tweets foi a conversa pura e simples, uma funcionalidade plenamente atendida por outros meios (MSN, Facebook, etc).
     Outro dado revelador é  que o número de usuários ativos (com pelo menos um tweet por mês) é na verdade muito baixo, cerca de 17% (mais detalhes na notícia do IDGNow). E embora o Twitter continue crescendo bastante, o ritmo desse crescimento vem caindo desde seu máximo em março de 2009 (mais detalhes no Hubspot). Se juntarmos o crescimento possante com o baixo índice de usuários ativos, temos uma boa pista do que deve estar acontecendo: a rotatividade é altíssima, muitas pessoas apenas testam o Twitter, não gostam e nunca mais voltam. Como dificilmente as pessoas se dão o trabalho de fechar formalmente suas contas, elas permanecem lá como usuários-fantasma, inflando os dados para sempre.
     Vou me deter um pouco sobre dois problemas fundamentais no Twitter, que inevitavelmente causarão seu declínio e queda num futuro próximo. O primeiro é o baixíssimo índice sinal/ruído, ou seja, pouca informação relevante navegando num mar de imbecilidades que você não quer ler. A ideia de que a massa de usuários automaticamente selecionaria o que é importante, fazendo emergir as informações relevantes e rapidamente esquecendo as besteiras faz algum sentido, mas não funciona tão bem na prática... muitas vezes ocorre o fenômeno oposto: uma besteira colossal de repente "bomba" no Twitter (e esse fato por si só acaba virando notícia na mídia convencional, o que é lamentável).
       A ideia de ficar "antenado" com o que rola no mundo é válida, mas existem outros meios para isso, menos influenciados por fenômenos de multidão. Quer ser abastecido com notícias atualizadas, com total controle sobre a fonte e focada nos assuntos que mais te interessam? A solução passa longe do Twitter, e se chama RSS. Procure seus jornais preferidos na Internet: quase todos atualmente deixam você se inscrever gratuitamente nos Feeds RSS de notícias, e ainda permitem escolher que temáticas você quer receber (assim você pode se livrar das onipresentes e odiosas notícias sobre a edição em curso do BBB). Você também pode, mesmo no século XXI, simplesmente assistir seu telejornal favorito à noite ou comprar seu jornal em papel e ver as notícias do dia anterior.. não há nada de errado nisso! (Quem acha que precisa estar constantemente antenado com os fatos para ter assunto para conversar provavelmente é uma pessoa entediante e sem conteúdo) 
     A outra falha fundamental do Twitter é que todos os amigos/seguidores recebem a mesma mensagem. A semelhança é notável (tanto pelo tamanho quanto pela relevância) com aquelas “mensagens promocionais” que ninguém gosta de receber no celular. Quando conversamos com alguém pessoalmente (ou mesmo por telefone ou msn), cada interlocutor está constantemente ajustando a forma e o conteúdo da mensagem às reações do outro. É isso que torna as conversas significativas, únicas e interessantes. Você não gostaria de falar as mesmas coisas (e do mesmo modo) com seu chefe, sua mãe e seus amigos de infância, não é? Pois é exatamente isso o que o Twitter acaba fazendo com a sua comunicação...
       Por motivos que eu desconheço, o Twitter ganhou uma popularidade desproporcional desde 2009, atraindo (além da grande massa de jovens desocupados mas antenados) personalidades públicas respeitáveis e grandes empresas de comunicação (CNN, Folha, Globo, etc). Virou um canal obrigatório para toda empresa com pretensões modernosas. É bom que se diga que, para as empresas e famosos, o Twitter faz total sentido, afinal é uma forma baratíssima de marketing. Mas quem faz uma rede social são os usuários comuns. Para explicar o sucesso do Twitter entre as pessoas comuns, penso em duas causas principais: 1) as pessoas gostam mesmo de perder tempo com fofocas e besteiras; 2) espírito de rebanho (também conhecido como "moda").
     Para terminar em grande estilo e com otimismo, vou arriscar uma previsão sobre o futuro do Twitter. Falando em termos epidemiológicos, as pessoas começarão a se curar desse "vírus". Um grande número de pessoas já esteve infectada (mesmo que só por um dia) e agora está definitivamente imune. Os usuários mais inteligentes e os que tem mais o que fazer da vida vão abandonar primeiro o microblog, tornando o conjunto de mensagens cada vez mais pobre, cada vez mais idiota, ajudando a espantar mais e mais usuários desiludidos (as empresas demorarão um pouco mais para debandar em massa). Não estou falando do encerramento definitivo das atividades do Twitter (afinal, buscadores anteriores ao Google ainda existem), mas aposto que o passarinho azul deixará de voar e rolará inexoravelmente ladeira abaixo rumo ao esquecimento merecido antes de 2014. 

Razão de ser deste blog

Tamanho da fonte
+ + +
"Os nossos conhecimentos são a reunião do raciocínio e da experiência de numerosas mentes"    Ralph W. Emerson

    
      Criei este blog para registrar meus pensamentos e opiniões sobre diversos assuntos que me interessam atualmente. Ele não tem um tema fixo, e foi criado para mais para fins pessoais que públicos. No entanto, respeito o leitor eventual e me empenharei em produzir bons textos.
     Mas o que é um bom texto, quando se fala em blog? Depende do objetivo do leitor, é claro. Eu prefiro textos curtos e de estilo simples, mas que "dão o que pensar". É esse tipo de texto que tentarei publicar aqui. Duas coisas que se encontram frequentemente em blogs não terão lugar aqui: desabafos pessoais e opiniões consensuais/majoritárias. Não que eu nunca compartilhe opiniões majoritárias, acontece que elas não precisam ser defendidas nem reforçadas, logo os posts resultantes seriam extremamente sem graça
     Temos muitas ideias ao longo da vida, mas se não as registramos em lugar nenhum, o risco de esquecê-las é grande. Lemos diversos livros, mas dificilmente nos lembramos de compartilhar o que aprendemos deles. E, ao não registrar, discutir e compartilhar, certamente esquecemos mais rápido e aprendemos menos. Portanto, este blog pretende suprir a função de registro (útil para mim), e ao mesmo tempo proporcionar reflexões em outras pessoas (útil para elas, espero). 
     Este blog dificilmente terá regularidade nas postagens, mas espero manter o mínimo de 1 post por mês. Comentários são sempre bem-vindos. Obrigado por ler!