Para melhorar a educação pública sem um aumento colossal nos gastos, deveríamos nos concentrar em três frentes de ação: 1) reforma dos currículos para ensinar o que realmente importa; 2) pesquisa e desenvolvimento de métodos de ensino mais eficazes; 3) com base nos dois primeiros passos, adotar o que funciona em toda a rede pública, de maneira uniforme. Os dois primeiros assuntos foram abordados em posts anteriores, e neste último texto da série tratarei do terceiro ponto.
Uma vez que redefiníssemos o que é importante ensinar nas escolas, e também quais os melhores métodos para transmitir tais conhecimentos, o passo lógico seguinte seria difundir essas boas práticas. Não basta descobrir maneiras de melhorar o ensino e esperar que elas sejam adotadas voluntariamente em toda parte, apenas porque funcionam melhor. Por diversas razões (algumas das quais discutirei a seguir), quem trabalha com educação no Brasil resiste a certas mudanças. Seria preciso que o Governo Federal tivesse um papel mais ativo, mais centralizador das decisões relacionadas a educação. Conhecendo o histórico dos nossos governantes, centralizar qualquer coisa pode parecer uma receita para o desastre, mas vamos adiar um pouco o veredito, enquanto a defesa apresenta seus argumentos.
Todo mundo sabe que algumas decisões funcionam melhor se tomadas em nível local (que ruas asfaltar na sua cidade), enquanto outras precisam ser tomadas em nível nacional (regras de trânsito, ou que moeda vamos usar). Por razões mais políticas que técnicas, a educação pública no Brasil acabou ficando dividida entre os governos Federal, estaduais e municipais. Isso traz algumas vantagens, como maior possibilidade de controle por parte da população e melhor adaptação a particularidades locais, mas também traz desvantagens, como menor economia de escala, mais burocracia e mais desigualdade na aplicação das verbas e nos resultados. Qual será o modelo mais adequado para administrar o sistema de educação no nosso país?
Imagine que o Brasil é uma grande empresa e você é o novo chefe do setor de Educação. O dono da empresa, Sr. Povo, quer que você melhore drasticamente a qualidade do sistema educativo, mas sem gastar mais para isso! Revendo as contas da administração anterior, você se depara com um quadro curioso: o Governo está há décadas injetando recursos, patrocinando inúmeras pesquisas acadêmicas sobre educação, abrindo novas vagas, fazendo avaliações periódicas... mas na ponta do sistema os resultados simplesmente não aparecem. É como se a verba estivesse “vazando” ao longo das diversas curvas e juntas desse sistema complexo. Algo está errado, mas você ainda não sabe exatamente o quê.
Confuso com tantos dados para analisar, eis que você se lembra de um velho provérbio: “panela que muitos mexem, ou sai insossa ou salgada”. Só pode ser isso! Todo aquele gasto, as pesquisas e as diretrizes, nada disso adianta porque, no fim das contas, cada escola e cada professor faz o que achar melhor! Se o objetivo é ter qualidade, o sistema atual desafia o bom senso, já que criar excelência educacional uma vez e expandi-la é muito mais fácil, barato e eficaz do que esperar que tal qualidade surja independentemente várias vezes. É por isso que até agora tivemos apenas exceções louváveis, aqui e ali: determinadas escolas públicas que se destacam nos vestibulares, ou mesmo professores excepcionais que conseguem mudanças louváveis em suas turmas de periferia, desafiando as estatísticas (e inspirando uma dinastia de filmes melosos) .
Não precisava ser assim. Não precisávamos nos contentar com raras exceções boiando num mar de mediocridade (ou calamidade) educacional. Só que tudo tem seu preço, e o preço para ter a excelência pedagógica difundida no país inteiro não seria apenas financeiro (na verdade, a médio prazo, qualquer investimento nesse sentido seria incrivelmente lucrativo para o País). O preço seria sacrificar boa parte da autonomia atual das escolas e dos professores.
Mas por que causa, razão, motivo ou circunstância eu estou culpando a liberdade dos professores? O fator determinante não seria simplesmente a má formação dada a essa classe? O que a liberdade tem a ver com a qualidade? Acontece que esses fatores estão intimamente ligados, mas nem sempre de maneira óbvia.
Esse assunto é delicado, quase um tabu. É artigo de fé do establishment educacional brasileiro que o professor deve ter grande autonomia para o bom desempenho das suas funções. Reza a cartilha que o professor é quem sabe o que é melhor para suas turmas, ele sabe o que funciona ou não no ensino da sua matéria. E ninguém parece questionar essas suposições, que, no entanto, não tem nada de evidentes. Pelo contrário, a evidência e o bom senso apontam justamente na outra direção: o excesso de autonomia do professor gera resultados irregulares e insatisfatórios nas nossas salas de aula.
Pense no que acontece atualmente numa sala de aula típica do nosso ensino público. Sabemos que o professor é mal pago e (geralmente) mal preparado. Apesar disso, espera-se que ele seja dedicado, conheça muito bem o conteúdo que a ser ensinando, tenha boa didática e ainda seja capaz de improvisar para contornar os mais diversos problemas de aprendizado dos alunos. Para fazer frente a esse desafio, ampla liberdade: o professor escolhe os livros didáticos que vai usar, dá sua aula como acha melhor e ninguém se mete. Na sala de aula, ele é o rei.
Os resultados são os mais variados possíveis. Se o professor for bom, é uma beleza: ele domina o assunto, transmite o conhecimento de forma atraente, prende a atenção dos alunos, sabe improvisar quando necessário. Se o professor for ruim, a aula também será ruim, chata, confusa, uma perda de tempo. Mas qual a causa dessas diferenças? Basicamente, o talento e o esforço de cada professor. O bom professor costuma ser bom por seus méritos individuais, e não pela formação que recebeu. No entanto, a maioria dos que entram na carreira não são capazes de superar uma formação ruim, e acabam se tornando professores ruins.
O que eu chamo de formação ruim? Ora, os professores não são ensinados a dar aula! Eles aprendem uma porção de teoria esdrúxula e tem que cumprir certa carga horária em estágios de treinamento em sala de aula, mas não aprendem, de forma técnica, a fazer o que se espera deles. E isso tem muito a ver com a heterogeneidade geral de currículos e métodos existentes, pois como não se sabe exatamente o que esses professores vão ensinar, ou a linha pedagógica adotada pela escola onde vão trabalhar, é quase impossível treiná-los de forma mais específica e prática.
Do jeito que as coisas estão, é difícil saber se o professor tem mesmo autonomia ou se está simplesmente abandonado ao deus-dará. Tudo indica que tentamos “queimar etapas”: demos a liberdade antes de preparamos os professores para usá-la com eficácia, e ficou por isso mesmo. Se o Estado não investiu na formação do professor, não o treinou para o bom exercício das suas funções, então como o sistema poderia se beneficiar da tal “autonomia”? Defender a liberdade dos professores no quadro atual é fingir que está tudo bem, é ignorar que estamos atribuindo uma responsabilidade desproporcional a esses profissionais, que são a alma e a base de qualquer sistema de ensino.
A meu ver, o ideal seria uma padronização também no treinamento dado aos professores. Uma vez desenvolvido um programa consistente de ensino para cada série escolar, a formação dos professores poderia se voltar especificamente para o papel que se espera deles nesse sistema. Eles seriam então capazes de entender a teoria por trás dos métodos de ensino adotados, e como tirar o máximo proveito desses métodos durante as aulas. Seria um sistema consistente, mais estruturado, menos dependente do talento individual. Em outras palavras, mais técnica e menos filosofia, como já ocorre em outras profissões maduras (como a Medicina, modelo que considero ideal para a Pedagogia seguir). Não haveria espaço para teorias pseudocientíficas de aprendizado, nem para baboseiras político-sindicais na formação dos novos professores. Eles se preocupariam menos em planejar a próxima greve, e mais em planejar a próxima aula (se bem que menos planejamento complexo seria necessário).
A crítica que faço não é contra os professores em si, e sim contra nosso sistema de ensino, que nunca os valorizou de verdade. A situação chegou a tal ponto que as causas dos problemas foram confundidas, misturadas com politicagem barata, distorcidas para servir sabe-se lá a que interesses, e hoje em dia pouco se fala em reformas profundas na Educação. Só se pensa em melhorias graduais, tímidas: investir um pouquinho mais nisso, dar um aumentozinho de salário aqui, pagar uma especialização ali.
Os próprios professores, devido a um condicionamento há muito estabelecido na profissão, defendem com unhas e dentes a liberdade desfrutada. Isso é até compreensível: uma classe tão explorada e mal paga (considerando a enorme importância social do seu trabalho) não admite mais a perda de qualquer benefício. No entanto, essa liberdade que a classe dos professores vê como uma vantagem e uma prerrogativa necessária é também parte importante do problema.
Essa tradição de autonomia se apoia em crenças como “cada criança é diferente”, “cada turma é única”, e “só o professor consegue perceber essas coisas e adotar as melhores estratégias”. As duas primeiras são verdadeiras (apesar de óbvias e pouco relevantes na prática), mas a terceira é um tanto forçada. Claro que os professores são bem intencionados, mas isso não garante que eles de fato saibam a melhor forma de ensinar sob circunstâncias variadas. Na verdade, a grande variabilidade dos alunos pode ser um argumento contra a autonomia do professor! Um grupo de especialistas bem formados, baseados em décadas de pesquisa e experiência prática, certamente teria mais condições de planejar uma boa aula (que leve em conta diversos tipos de aluno ) do que qualquer professor individual, mesmo dos mais experientes.
Já a autonomia dos Estados, municípios e escolas provavelmente é baseada no mito das “especificidades locais”. Como se a Matemática do Norte fosse diferente da do Sul! OK, é óbvio que “a realidade do aluno” deve ser levada em conta. Mas isso não muda o fato de que a maior parte do conteúdo de qualquer disciplina é invariável, não muda de uma região para a outra. Além disso, poderíamos perfeitamente ter uma base nacional uniforme mas manter algum espaço (uns 10%) para os conteúdos regionais.
Quando um sistema não funciona bem e não responde a décadas de mudanças superficiais, é preciso questionar até mesmo os fundamentos mais básicos. Mesmo que a Educação estivesse funcionando bem no Brasil, isso não significaria que nenhuma reforma seria necessária. O mundo evolui constantemente, os países competem entre si, e um dos recursos mais importantes para sustentar o progresso nacional é uma população bem educada.
A verdade é que uma alta qualidade de ensino num sistema educativo liberal como o nosso só seria possível com uma formação excelente para a maioria dos professores. Aí sim, eles saberiam o que fazer com a liberdade e os resultados seriam muito bons, como já acontece em alguns países desenvolvidos. Poderíamos copiar esse modelo e alcançar a mesma qualidade? Sim, mas uma reforma desse tipo levaria mais tempo e custaria muito mais dinheiro do que a que eu proponho aqui, que consistiria em:
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Centralizar todo o gasto com Educação pública apenas no Governo Federal, deixando a fiscalização a cargo da população e da imprensa; acabar com todos os órgãos estaduais e municipais de educação.
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Uniformizar nacionalmente os currículos e materiais didáticos. Isso geraria economia de custos e favoreceria a qualidade.
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Revisar periodicamente os métodos e conteúdos, para manter somente o que existe de melhor e mais eficaz, devidamente embasado em pesquisas e estatísticas.
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Com a economia resultante, melhorar a formação dos professores e aumentar o controle sobre a profissão, incluindo uma prova de habilitação obrigatória (estilo a da OAB para advogados).
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Adotar uma política salarial mais justa, com piso nacional atraente e incentivos financeiros para permanência em regiões de maior carência de bons professores (pagar os melhores professores para irem aos piores lugares).
Uma reforma assim poderia ser feita em 10 ou 15 anos, incluindo toda a pesquisa de base, programas piloto e mudanças legislativas (inclusive na Constituição). Todos sabemos o que não queremos mais nas nossas escolas. Chega de aulas mal dadas, livros didáticos com erros, conteúdos desestimulantes, interferências políticas e ideológicas, professores doutrinando alunos num esquerdismo ingênuo, aprovação automática, avaliações de faz de conta, analfabetismo funcional e diferenças absurdas na qualidade entre escolas. Se lembrarmos que o foco da educação são os alunos, e não os professores, algumas soluções se apresentam naturalmente. Por mais que o remédio pareça amargo, ainda é melhor tomá-lo do que permanecer doente.
