Vale a pena apreciar por alguns momentos as duas obras de arte abaixo, do mestre italiano Caravaggio (1571 – 1610), que adorava pintar temas bíblicos.
Abraão e Tomé (ou Tomás) são personagens bíblicos muito interessantes. Eles ilustram atitudes mentais opostas: um é o crédulo à toda prova, exemplo de fé cega em Deus; o outro, exemplo de ceticismo, um homem prático que pedia evidências para acreditar em fatos incomuns. Por motivos óbvios, as religiões preferem promover o exemplo de Abraão; atitudes como a de Tomé são desprezadas como sinais de fraqueza moral.
Abraão teria sacrificado seu filho a pedido de Deus, se o próprio Deus, num capricho de adolescente, não tivesse mudado de ideia e detido a mão do homem no último instante. Pela fé cega que demonstrou, Abraão é louvado e retratado como um modelo de virtude na Bíblia. Mas convenhamos, ao menos nessa ocasião, Abraão foi um idiota. E se fosse o Diabo tentando enganá-lo se passando por Deus? E se Abraão estivesse apenas ficando louco? Por que ele não considerou essas hipóteses e foi direto cumprir a ordem assassina? O desfecho feliz do episódio não muda o fato de que o velho ia degolar o próprio filho em sacrifício.
Tomé, ao contrário de Abraão, tem um papel muito pequeno na Bíblia. Mas de certa forma ele também é especial: foi o único apóstolo a duvidar seriamente da ressureição do Mestre. Para se convencer, Tomé precisou tocar no corpo do Cristo ressuscitado. No contexto dá Bíblia, Tomé só parece incoerente se levarmos em contas os diversos "prodígios" que todos os apóstolos presenciaram ao longo da convivência com Jesus (mas convenhamos, se quem escreveu os relatos anos depois tivesse que exagerar algo, certamente escolheria as façanhas de Jesus para isso). Só que Tomé também viu muitíssimas coisas que provavam que Jesus era um homem de carne e osso, mortal como os outros (se tem algo que foi propositalmente omitido na Bíblia, até por falta de significado moral, foram as funções fisiológicas normais de Jesus). Ora, a experiência de Tomé ou de qualquer pessoa nunca deixou dúvidas: os homens morrem e não voltam. Qualquer desvio dessa regra é algo extraordinário, que não pode ser provado simplesmente por relatos de meia dúzia de amigos. Nem a Bíblia, com todas as distorções e exageros, consegue fazer o questionamento de Tomé parecer vergonhoso (até porque ele se redimiu quando constatou seu erro e hoje em dia é tão santo quanto os demais apóstolos).
Não importa se esses episódios bíblicos ocorreram de fato; eles estão aqui apenas pelo valor ilustrativo. Seria muito fácil tomar os dois personagens como paradigmas realistas do cético e do crédulo, e encerrar o post agora, concluindo que o ceticismo é a melhor atitude. Acontece que Tomé até representa bem um cético moderno, mas seria injusto atribuir às pessoas religiosas atuais a obediência cega demonstrada por Abraão (embora ainda ocorram casos de pessoas matando outras porque acham que isso é a vontade de Deus). Como eu sou um cético, não se pode esperar imparcialidade total aqui. Mas seria desonesto ignorar os argumentos da parte contrária e apresentar a minha posição como a panaceia universal. Existem critérios objetivos para decidir se é melhor ser crédulo ou cético no mundo de hoje? Seria o meio-termo a melhor opção? O restante do post examina essas questões e tenta respondê-las com base em argumentos simples e racionais.
Neste ponto, é importante definir os competidores. De um lado, o ceticismo, entendido como uma propensão a questionar, duvidar das coisas. É como um firewall intelectual, que tem por objetivo defender o praticante de ideias falsas ou daninhas. Ele se baseia em alguns princípios, tais como: a) se um fato tem duas explicações igualmente prováveis, fique com a mais simples; b) alegações extraordinárias requerem provas muito boas; c) o ônus da prova é de quem defende a alegação. Ser cético não significa ser 100% racional ou questionar tudo, até porque viver assim seria impossível. Do outro lado, temos a credulidade: uma propensão a crer facilmente, geralmente por simplicidade ou ignorância. Não é sinônimo de fé em Deus, embora as duas coisas às vezes andem juntas. Existem muitos graus de religiosidade, não dá pra classificar toda pessoa religiosa como crédula, mas quem acredita em horóscopos, videntes ou duendes certamente se enquadra na definição de crédulo. Ceticismo e credulidade são dois polos no espectro da racionalidade: quando usamos intensamente a razão, estamos automaticamente sendo céticos; quando deixamos a razão de lado – em prol da emoção ou coisa parecida –, tendemos à credulidade. Toda pessoa oscila entre esses polos em diferentes situações, então o que eu vou chamar de cético aqui é simplesmente alguém que pratica o ceticismo na maior parte do tempo, e o crédulo será o inverso.
Para saber qual dessas filosofias básicas é melhor para nós, podemos avaliar tanto do ponto de vista pessoal quanto do coletivo. Qual atitude mental é mais indicada para um indivíduo nos tempos modernos? E qual gera mais benefícios para a sociedade como um todo? Nem sempre a atitude coletivamente desejável é a que mais beneficia o indivíduo. Por exemplo: ausência de corrupção é bom para toda a sociedade, mas isso não muda o fato de que a corrupção beneficia o corrupto! Da mesma forma, vacinação é bom para a saúde pública, mas pode chegar um ponto em que, para uma criança individual, o risco inerente à vacina supera o risco de contrair a doença. Felizmente, com o ceticismo esse dilema não acontece: ele é claramente melhor do ponto de vista coletivo, e pelo menos equiparável à credulidade do ponto de vista individual. Mas não acredite nisso antes de examinar os argumentos!
Vamos começar pela perspectiva do indivíduo. Você, cidadão ocidental alfabetizado, usuário de internet, se pudesse decidir livremente no que acreditar, será que acreditaria exatamente no que acredita agora? Se fosse obrigado a voltar no tempo e pudesse mudar algumas coisas, ainda escolheria torcer pelo mesmo time? Seguiria a mesma religião? Claro que você não pode fazer isso, então apenas se imagine como um observador neutro, isento de preconceitos, interessado apenas em resultados. Como se fosse o presidente de uma indústria, analisando os prós e contras de dois novos produtos que a empresa pretende lançar.
Apresentamos o primeiro produto para sua avaliação. Nós o chamamos de Ceticismo, e acreditamos que ele traz várias vantagens para o usuário. Em primeiro lugar, protege contra charlatanismos de todo tipo: políticos populistas, pastores sanguessugas, videntes e produtos "milagrosos" anunciados na TV. Ou seja, economiza tempo e dinheiro! Outra vantagem do Ceticismo é que ele favorece o diálogo, a cooperação e a busca de soluções: pesquisas mostram que os indivíduos racionais tem mais chance de resolver os conflitos amigavelmente. Acreditamos também que ele favorece a progressão em carreiras intelectualmente exigentes. Por fim, é um produto que você pode usar em qualquer lugar, em qualquer situação! Não precisa mais ficar trocando entre o "modo crente" na igreja (e na família) e o "modo racional" no escritório. Quanto a desvantagens, nossa equipe de testes encontrou algumas.. vamos a elas: o uso prolongado do ceticismo causa perda de certezas arraigadas e questionamento constante; isso pode gerar inquietação mental e tristeza em alguns indivíduos. O produto tende a provocar a perda do "sentido profundo" da vida. Também é causa potencial de conflitos com terceiros, se estes forem usuários frequentes da Credulidade.
O segundo produto é justamente a Credulidade. Ela traz um excelente conforto psicológico para o usuário! Você se sente muito bem, parte de algo maior, uma pessoa abençoada e destinada ao sucesso! É o suprassumo do pensamento positivo! E tem mais: quando as coisas dão errado, você nunca se sente culpado! Além disso, você terá uma convivência tranquila com todos que pensam parecido com você... que são a maioria da população! É um produto incrível mesmo, estamos muito animados com ele. Como sempre, a equipe de testes encontrou algumas desvantagens.. mas lembremos que eles são pagos pra isso mesmo: este produto pode tornar o usuário extremamente vulnerável a práticas enganatórias disseminadas em nossa sociedade, notadamente o curandeirismo, as religiões mercenárias e as promessas políticas vazias. O conforto mental excessivo gerado pelo produto pode levar à perda do hábito de pensar, com diminuição da produtividade no trabalho. Os hábitos de leitura desses indivíduos se mostraram bastante concentrados em torno de um ou dois livros. Os indivíduos que escapam desse padrão são obrigados a cultivar duas atitudes conflitantes em sua vida diária: uma em que suspendem todo julgamento racional, usada nos contextos religiosos e (em menor escala) sociais; e outra, usada em contatos com crenças diferentes ou em profissões intelectuais como medicina, engenharias e ciências em geral. Suspeitamos que essa dualidade cause desconforto mental e prejudique o desempenho profissional, mas não temos dados concretos. A depender da crença específica adotada, o indivíduo pode se sentir compelido a desprezar a ascensão sócio-econômica como algo inútil ou imoral. Credulidade intensa de um tipo pode levar a conflitos violentos com usuários de outros tipos. Acreditamos que o uso prolongado da Credulidade acarreta grandes custos financeiros ocultos, decorrentes tanto da exploração direta por terceiros quanto do comodismo associado a este modo de pensar.
Se analisarmos com objetividade, o jogo ainda não pende decisivamente para nenhum dos lados. Dependendo do peso que a pessoa dá a um outro fator, a credulidade pode ser mais vantajosa. Não temos como falar em certo ou errado nesse quesito. Cada pessoa está empenhada na busca pela felicidade, e provavelmente está usando as melhores ferramentas que tem à disposição (ou pelo menos acredita nisso, o que é quase a mesma coisa). Claramente, os excessos de um e de outro modo de pensar são prejudiciais ao indivíduo. Se você duvida de tudo e de todos, ninguém gostará de você; também perderá muito tempo "mastigando" desnecessariamente antes de engolir informações inofensivas. Se você acredita em tudo, não passa de um idiota, facilmente manipulável por qualquer um. Só porque você prefere uma das opções, não significa que ela seja a melhor pra todas as pessoas. Se a sua crença torna você mais feliz do que seria com outra crença, então essa é a crença certa para você e não faz o menor sentido tentar mudar.
Vamos agora pensar um pouco do ponto de vista coletivo. O que funcionaria melhor, uma sociedade com predomínio de céticos ou com predomínio de crédulos? Depende do que a gente chama de "funcionar melhor". Se pensarmos em "estabilidade" e "tradição" como valores fundamentais, provavelmente seria melhor viver como crédulo numa sociedade uniformemente religiosa, como certos países islâmicos. Mas a maioria dos brasileiros concorda com os valores da democracia liberal, ocidental, capitalista, apoiada no progresso técnico-científico. Queremos liberdade de escolha sobre o que comprar, onde morar, como educar nossos filhos, em quem votar nas eleições, que músicas ouvir, e assim por diante. Também gostamos muito do progresso material: queremos um ambiente mais limpo, carros e casas cada vez melhores, comida para todos, produtos mais baratos, remédios mais eficazes, escolas que ensinem nossos filhos a pensar direito e a serem membros produtivos da sociedade, e certamente queremos que os cientistas, engenheiros e médicos continuem pesquisando para nos proporcionar todas essas coisas. Então a questão é: que modo de pensar contribui mais para o tipo de sociedade que nós queremos? Se houver uma resposta definida para essa pergunta, então fica óbvio que, pelo bem da coletividade, deveríamos promover ativamente esse modo de pensar.
Acontece que o ceticismo é a melhor opção para promover o progresso da sociedade. Não que um crédulo não possa viver bem numa sociedade moderna e desenvolvida (tanto o crédulo como o cético preferem esse tipo de sociedade); acontece que, para promover esse valores ocidentais modernos que tanto apreciamos, o cético médio contribui muito mais que o crédulo médio. Não é muito difícil chegar a essa conclusão. O cético resiste melhor a tentativas de manipulação. Ao mesmo tempo que não acredita em milagres, também não acredita em promessas absurdas feitas por políticos em época de eleição. A essência da verdadeira democracia é ter cidadãos pensantes decidindo individualmente, e não uma massa de manobra desinformada votando por impulso ou porque quer votar no candidato "que vai ganhar". A História também nos mostra que não vale a pena acreditar nas promessas baratas dos ditadores.
A mesma atitude de rebanho que as religiões tanto gostam de promover foi usada por Hitler para conseguir o apoio do povo alemão. A justificativa de "somos o povo escolhido, somos melhores que eles e temos o direito de dominá-los" foi usada contra o povo judeu por Hitler e pelo povo judeu contra diversos outros povos, como relatado em vários trechos do Antigo Testamento (para uma impressionante sequência de matanças ordenadas por Deus, ver Josué 10:8-42). Onde houver militarismo, patriotismo exagerado ou xenofobia generalizada, é porque o povo não está pensando direito. Pessoas pensando individualmente, de modo cético, nunca produzem esse tipo de resultado. Só quando os indivíduos desligam uma parte muito importante do cérebro – e passam a seguir o que "todo mundo" está fazendo – é que se tornam joguetes nas mãos de alguém mais esperto (e possivelmente menos escrupuloso).
O cético não se apega a tradições, que tanto atravancam o desenvolvimento da humanidade. Não é porque as coisas sempre foram feitas de um jeito que esse é o melhor jeito de fazê-las. Não é porque "todo mundo" acredita numa coisa que essa coisa é a verdade. A atitude cética está por trás de todo grande avanço no conhecimento humano; para avançar, muitas vezes é preciso questionar as verdades estabelecidas, e isso dificilmente ocorre nas mentes doutrinadas por alguma religião. (É verdade que, em certos períodos, os principais avanços científicos foram feitos por pessoas religiosas, como Galileu ou Newton, mas essa combinação está cada vez mais rara. Hoje em dia, a grande maioria dos cientistas bem-sucedidos é de agnósticos ou ateus)
Muitas pessoas religiosas imaginam que a crença em Deus é necessária para manter a moralidade no mundo, do contrário desmoronaríamos no caos e na barbárie. Durante a evolução das sociedades humanas, é bem provável que a religião tenha sido de fato uma forma de controle social necessária para manter a coesão e avançar, construir as primeiras cidades, aperfeiçoar a tecnologia. Tudo bem, mas isso não prova que a religião continua necessária nos dias de hoje. Se você conhece ateus e religiosos, acredita mesmo que essa característica influencia a moralidade deles? Seria capaz de dizer qual deles tem mais probabilidade de cometer um crime? Infelizmente, não encontrei estatísticas confiáveis a respeito, de modo que apelo à experiência pessoal do leitor. (Estudos nos EUA mostraram que a proporção de ateus é bem menor nas prisões do que na sociedade em geral. Mas é difícil interpretar esses dados, porque há uma certa confusão entre as categorias "ateu" e "sem religião", e principalmente porque na cadeia há uma pressão muito maior para se enquadrar em alguma religião, como forma de proteção)
A moralidade simplesmente não vem de Deus. É uma característica inata, que evoluiu em paralelo com nosso maravilhoso cérebro; já nascemos com ela e todas as sociedades humanas a possuem. Ela não surgiu porque Deus controlou o processo evolutivo para nobres finalidades, e sim porque a propensão à conduta ética favorecia os indivíduos e grupos onde ela prevalecia. Isso sim, continua tão válido como sempre foi! Se você se comportar de maneira honesta e justa com os outros, eles vão retribuir e você acabará beneficiado. Mas se você sair roubando e matando gente, é óbvio que vai se dar mal! É por isso que não precisamos da ideia de Deus pra manter a ordem aqui na Terra. A sociedade já está crescidinha demais para precisar de um Grande Pastor de Ovelhas.
Acho que essa argumentação é suficiente quanto às vantagens coletivas da atitude cética no mundo moderno. Para encerrar, gostaria de voltar um pouco às questões individuais. Não citei como vantagem do ceticismo uma que é muito importante para mim: a satisfação intelectual de saber a verdade, ou pelo menos conhecer os limites da minha própria ignorância. A religião simplesmente não oferece isso. Se você segue uma religião e começa a se questionar (e por que Deus te daria um cérebro capaz de questionar?), a única saída é admitir que não tem certeza, mas gosta de acreditar nessas coisas e pronto. E aí você segue pela vida afora acreditando no que a sua religião disse pra acreditar...
Não é difícil chegar à conclusão de que as religiões não fazem sentido. Qualquer pessoa poderia fazer isso, não precisa ter conhecimento científico avançado; é apenas uma questão de bom senso e curiosidade. Por que acreditar num livro escrito há mais de mil anos, quando o conhecimento humano era rudimentar? Por que pautar a vida em regras desenvolvidos em sociedades primitivas, patriarcais, conservadoras, xenófobas e preconceituosas? Será que Deus se preocuparia mesmo em especificar tabus alimentares? (É como se o Steve Jobs estivesse preocupado com a cor dos parafusos internos do iPhone). E mais, sendo ele tão poderoso, por que precisaria de qualquer tipo de intermediário (padres, pastores) para se comunicar com seus fieis? Não faz o menor sentido. Se Deus existe, não tem a menor possibilidade de ser como os padres ou pastores pregam. Se um dia você se vir na situação de Abraão, ouvindo a voz de Deus lhe dizendo para matar alguém, não dê ouvidos; procure um psiquiatra, urgente!
Diante disso, é possível algum tipo de conciliação? Dá pra continuar acreditando em algum tipo de Deus, mas cultivando uma atitude cética, sem perder a coerência? Sim, acho que existe uma saída honrosa para este dilema. Ela consiste em empurrar Deus pra bem longe... lá para as origens do Universo, por exemplo. Se Deus apenas criou o Universo, se ele é uma espécie de força difusa e incognoscível permeando toda a matéria, nenhum cientista poderá provar que ele não existe. É perfeitamente racional acreditar nesse tipo de deus, e nada na nossa experiência cotidiana poderá depor contra a existência dele. Esse "deus" é diferente do tradicional, mas tem lá suas vantagens: ele não te cobra absolutamente nada. Ele não é como uma pessoa, não fica zangado, não tá nem aí para o que você apronta aqui na Terra. Ele apenas criou o Universo, ou é o próprio Universo, e nada mais. Somos pequenos demais para ter qualquer influência sobre ele. Achar que essa força universal se preocupa com você seria como imaginar que um ser humano conhecesse pelo nome cada uma das bactérias que abriga no intestino (uma dica: são alguns trilhões). Ou Deus não existe ou é tão grande que é como se não existisse. Não sei você, mas eu acho bem melhor assim.
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