terça-feira, 19 de novembro de 2013

As ilusões econômicas da esquerda

Em Economia, existem controvérsias quase eternas, nas quais é muito difícil saber quem está do lado certo. É normal economistas igualmente qualificados discordarem sobre a melhor política a ser adotada pelo governo, se é melhor priorizar o combate à inflação ou o crescimento do PIB, se é melhor diminuir ou aumentar os juros etc. O problema é quando o público em geral tem a ilusão de que outros pontos, muito mais básicos, também são controversos em Economia, como se tudo fosse questão de opinião.

Acontece que existem inúmeros fatos econômicos comprovados, tendências universalmente válidas; nesses casos, as controvérsias entre especialistas giram em torno apenas da instensidade dos efeitos. É como se a força da gravidade variasse em diferentes pontos da Terra, mas todos concordassem que ela existe e atua sempre para baixo. Infelizmente, até hoje muita gente nega as "leis da gravidade" em Economia. Os principais negadores estão à esquerda do espectro político: socialistas, comunistas, marxistas, chavistas... para simplificar, usarei o termo "esquerdistas".

A Economia não é uma ciência exata, capaz de fazer previsões precisas e indicar A solução certa para cada problema, mas também não é um samba do crioulo doido. Na verdade, defender certas teses econômicas hoje em dia só é possível por má fé ou ignorância. Eu diria que o esquerdista típico está para o economista como o criacionista está para o biólogo.

Causas

Antes de entrar nos temas econômicos, considero útil entender as três causas mais prováveis da grande aceitação das teses esquerdistas no Brasil de hoje.

1) Ignorância econômica generalizada. Infelizmente, não aprendemos economia na escola, mesmo sendo uma das ferramentas mais úteis para entender o mundo. Só recebemos rudimentos de economia dispersos nas aulas de matemática, história e geografia, estas últimas frequentemente ministradas por professores comprometidos com teses esquerdistas. Como resultado, a maioria de nós chega à vida adulta completamente despreparados para entender as controvérsias econômicas. Só vemos os fatos isolados nos noticiários, não temos qualquer embasamento teórico para interpretá-los e nos tornamos presas fáceis para todo tipo de discurso populista. Claro, vamos "ampliar os direitos do trabalhador"! Esquecendo que isso tem um custo, diminui a eficiência da economia, espanta investimentos, sobrecarrega ainda mais a previdência e que a economia não é estática: os empregos perdidos num setor tendem a reaparecer em outros, sem qualquer intervenção do governo.

2) A ilusão de sentido. A teoria econômica esquerdista tira proveito da tendência natural que temos de acreditar em tudo que "faz sentido". Parece óbvio que os patrões "exploram" os empregados, que existem classes sociais bem definidas e com interesses conflitantes, que os países ricos exploram os países pobres, e assim por diante. Também parecia óbvio que o Sol girava em torno da Terra ou que as espécies eram imutáveis! Felizmente, as explicações verdadeiras também fazem sentido e, uma vez aprendidas, desalojam para sempre as explicações ingênuas. A teoria marxista (e derivadas), por mais complexa e aparentemente racional que seja, é um castelo de cartas, pois se apóia em premissas falsas. Não existe luta de classes, o sistema econômico não tende para o socialismo, e o socialismo não é sequer desejável pela maioria das pessoas.

3) Tendência a culpar "o outro" pelos problemas. Outra tendência humana universal muito explorada pelos esquerdistas. Claro, se o Brasil vai mal, isso foi culpa da colonização parasitária por Portugal, depois da dominação imperialista da Inglaterra, agora dos EUA... Se os trabalhadores estão mal, a culpa é dos capitalistas exploradores. Ninguém gosta de assumir a culpa. Assim como certas religiões adoram culpar o diabo e os "encostos", o esquerdismo adora culpar a burguesia e "o sistema". Como a maioria das pessoas está insatisfeita com sua situação, nunca faltarão novos recrutas para esse tipo de ideologia.

Com essa receita simples, o esquerdismo econômico conquistou inúmeros adeptos, até entre gente que não vota com a esquerda, mas "simpatiza" com algumas teses.

Três pontos fracos do esquerdismo econômico

A teoria econômica marxista "degenerou" ao longo das décadas, e hoje o que se encontra na mente dos seguidores e simpatizantes é uma versão deturpada, em parte por culpa da exposição extremamente longa e complicada feita por Marx no seu famoso O Capital. Pelo menos Marx era um economista de verdade, com amplo conhecimento das teorias correntes e da história mundial. Já os esquerdistas de hoje não leram esse livro, não têm conhecimento básico de economia (às vezes nem de história), mas estão cheios das próprias ideias econômicas, mais fantasiosas que qualquer coisa escrita por Marx. O que eu critico aqui, portanto, é a versão popular do esquerdismo econômico, presente nas propostas dos políticos e nas manifestações de rua.

1) Atacam um livre mercado idealizado, que ninguém defende. "Vejam, outra crise do capitalismo! E ainda dizem que os mercados se regulam sozinhos". Sim, o capitalismo tem crises frequentes, mas isso não é sinal de que esteja fadado ao fracasso. E não, ninguém acredita que os mercados se regulem perfeitamente! Até os governos mais liberais interferem bastante na economia. Essas críticas vazias só mostram o que todo mundo já sabe: o capitalismo não é perfeito, a mão invisível do mercado não resolve tudo. A melhor defesa é simplesmente perguntar: existe alternativa melhor? Não, ainda não inventaram.

2) Seguem uma teoria rebuscada, hermética, cheia de jargão. Mais-valia, luta de classes, valor-trabalho.. a teoria marxista é complexa e tem todo um vocabulário próprio. Como a realidade subjacente é relativamente simples e observável por todos, podemos concluir que a complicação teórica não passa de uma forma de proteção. As religiões são especialistas em usar a barreira da "iniciação": só os iniciados, que entraram pro culto e estudaram os livros sagrados, podem criticar qualquer aspecto da religião; os" de fora" simplesmente não entendem e não sabem do que estão falando!

Já passei por isso. Discutindo com um esquerdista na internet, eis o argumento com que ele tentou se defender da acusação de ser um ignorante em economia:

"E você entende de economia socialista? Aplicar análises e conceitos liberais pra julgar um país tendente ao socialismo [Venezuela] é inocente, pra dizer o mínimo."

Obviamente, os iniciados, que teriam legitimidade para criticar, dificilmente fazem isso. Para dar uma ideia da dificuldade para se tornar um verdadeiro iniciado, veja esse trecho da "Advertência aos leitores do Livro I de O Capital", de Louis Althusser:

"(...) Entender que não se aprende a andar na teoria logo na primeira tentativa, súbita e definitivamente, mas pouco a pouco, com paciência e humildade. Esse é o preço do sucesso. Na prática, isso quer dizer que, para ser compreendido, o Livro I precisa ser relido quatro ou cinco vezes consecutivas. Esse é o tempo necessário para aprender a andar na teoria."

Ler quatro ou cinco vezes consecutivas o Livro I, de 1.500 páginas, só para "aprender a andar" na teoria marxista?! Algo me diz que.. NUNCA! Para piorar, fica claro que a dificuldade teórica acaba afetando os próprios adeptos. A maioria não sabe do que está falando, não domina a teoria marxista e muito menos o básico da teoria econômica moderna.

Não importa o que os adeptos digam, não existe economia socialista com um sistema separado de regras, causas e efeitos (assim como não existe uma bioquímica criacionista). Existe uma só Economia e um só mundo real. Qualquer que seja a preferência filosófica do analista, ele terá que usar os mesmos instrumentos, analisar os mesmos dados e levar em conta os mesmos efeitos, se quiser ser levado a sério.

3) Acreditam numa conspiração burguesa. Eu não sei se Marx acreditava nisso, mas os esquerdistas de hoje realmente acham que existem "interesses de classe" e que há uma espécie de conspiração mundial da "burguesia" para manter os pobres na pior. Isso não pode ser verdade, por dois motivos simples: seria ruim para a própria burguesia (ela quer mercado consumidor, e a classe média compra mais que os pobres); nunca existiu essa coordenação (no capitalismo é cada um por si, o interesse de um burguês é roubar o mercado do outro).

Fatos econômicos indiscutíveis

Mais importante que entender os erros do esquerdismo é conhecer alguns fatos econômicos bem estabelecidos. Nesta breve lista, dei prioridade aos fatos que os esquerdistas parecem ignorar.

1) O mercado para a maioria dos bens e serviços consegue se regular sozinho. Os preços refletem os custos, a oferta se adapta à demanda e tudo se aproxima do equilíbrio, sem necessidade de intervenção do governo. Veja bem, ninguém acredita que os mercados se ajustem perfeitamente e ninguém nega a existência de crises! O que os economistas sérios dizem é que a intervenção do Estado na economia não resolve esses problemas e que pode criar muitos outros. Os únicos mercados em que a maioria dos economistas admite uma regulação mais intensa são os chamados "monopólios naturais", como o fornecimento de energia elétrica.

2) Toda transação voluntária beneficia as duas partes. Não importa se é um emprego, uma compra, um empréstimo a juros, um aluguel... e não importa o quanto o preço pago é diferente da "média". Se as pessoas não foram coagidas, ninguém foi "explorado" na transação. O mesmo vale para o comércio entre países, todos ganham (não necessariamente em medidas iguais). As situações que tornavam a exploração possível (escravidão, colonização, coação por máfias etc.) ficaram no passado, ao menos nos países civilizados.

3) As empresas buscam o lucro máximo, não o preço máximo. Mesmo que se trate de um monopólio, a preocupação com "preços abusivos" é mais teórica que prática. Pense numa empresa de ônibus sem concorrentes: será que ela aumentaria os preços indefinidamente se não fosse impedida pelo governo? Claro que não! O lucro não depende só do preço, mas dos custos e do número de passagens vendidas. Se o preço subir além do que o público está disposto a pagar, o lucro da empresa cairá e ela será forçada a baixar o preço ou fechar. Na prática, o preço atual da maioria das coisas já está perto do que maximiza o lucro, há pouco interesse em aumentar.

4) Estabelecer preços máximos provoca escassez. A ideia de colocar um preço máximo ou "preço justo" para cada produto pode parecer boa para a população, mas nunca funciona na prática. Se o preço tabelado for mais alto que o preço natural, é inútil; se for mais baixo, provoca escassez: os produtores não conseguem ter lucro, reduzem a produção ou fecham as portas... como a demanda continua, surgem mercados negros (com preços iguais ou maiores que antes da regulação) e todos ficam pior do que antes, com exceção dos contrabandistas.

5) Tudo o que é "de graça" tende a ser usado em excesso. A maioria dos serviços funciona bem melhor quando a cobrança é proporcional ao uso. As estradas com pedágio são quase sempre muito mais bem conservadas e uma das razões por que os hospitais púbicos vivem superlotados é que o atendimento é grátis para o paciente.

6) As leis não conseguem determinar sobre quem vai recair o peso dos impostos. Mesmo que o imposto seja cobrado formalmente do vendedor, o custo extra será sempre parcialmente repassado ao consumidor. Da mesma forma, é impossível taxar "só os ricos", pois as repercussões econômicas afetarão também as classes baixas. Dizer que vai taxar só os ricos ou as empresas não passa de uma bravata populista: se você aumentar os impostos sobre as empresas, elas vão contratar menos, e a renda dos pobres também cairá.

7) Todos querem liberdade de escolha. Dada a diversidade humana, é impossível que um planejador central consiga prever que produtos e serviços cada pessoa vai querer com X de dinheiro. É sempre melhor, do ponto de vista individual, receber os X em dinheiro e gastar como quiser. Por isso pouca coisa deve ser fornecida "de graça" (ou melhor, compulsoriamente) pelo Estado.

8) O autointeresse é mais forte que o interesse coletivo. Isso é uma "lei" da natureza humana, com inúmeras implicações econômicas. Um trabalhador vai trabalhar muito melhor se o salário for proporcional à sua produção, comparado a outro que receba salário fixo e trabalhe "pelo bem da nação" ou coisa parecida. Uma empresa vai produzir mais e mais barato se estiver lutando pelo próprio lucro do que se estiver apenas tentando cumprir as metas estabelecidas pelo governo. O capitalismo tira proveito do egoísmo humano, enquanto o socialismo finge que a solidariedade falará mais alto e todos trabalharão pelo bem comum. Importante notar que essa mesma regra justifica certas formas de regulação: é óbvio que uma empresa poluidora não vai simplesmente reduzir seus lucros instalando filtros espontaneamente, então o governo cria leis e impostos que forçam a empresa a reduzir sua poluição.

9) Uma economia planificada terá desempenho muito inferior a uma economia de mercado, ao menos com a tecnologia atual. Talvez algum dia um supercomputador consiga analisar todas as informações relevantes para manter a economia nacional (ou mundial) funcionando perfeitamente, sem crises ou desperdícios, mas um exército de burocratas humanos nunca será capaz de superar a auto-regulação do livre mercado. Não é que o mercado se regule perfeitamente, é só que nunca inventaram alternativa melhor. A URSS não tinha a menor chance de vencer a Guerra Fria, estava condenada desde o princípio por um sistema ineficiente e pouco flexível.

Controvérsias econômicas legítimas

Mesmo concordando com todos os fatos básicos acima, ainda sobra muito espaço na Economia para controvérsias legítimas. Eis algumas dessas questões:

O Estado deve ter empresas?

Deve existir um salário mínimo? Qual deve ser o valor dele?

Deve existir uma jornada máxima de trabalho? As férias devem ser obrigatórias?

A desigualdade é um problema por si só? Como combatê-la? Taxar pesadamente as empresas e os mais ricos é uma boa ideia?

Qual a carga tributária ideal? Se o governo aumentar os impostos, a arrecadação vai mesmo subir?

Devemos taxar as importações para proteger os produtores nacionais?

Como controlar a poluição sem prejudicar a economia? Qual o "preço" de um ambiente limpo?

Deve haver um imposto internacional para diminuir os fluxos de capital especulativo?

Ninguém tem todas as respostas, diferentes governos podem adotar posições opostas, e talvez nunca saibamos quem estava "certo". Isso é muito diferente dos fatos bem estabelecidos que citei anteriormente. Você pode concordar filosoficamente com o socialismo, pode desejar que a sociedade funcionasse de um jeito diferente, pode até sonhar com um mundo perfeito, com uma natureza humana transformada, honesta e solidária. Talvez isso se torne realidade daqui a alguns séculos. Mas não tente ler a realidade de hoje com lentes distorcidas, porque assim você nunca conseguirá transformá-la.


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Bibliografia recomendada

Introdução à Economia, de Gregory Mankiw

Basic Economics, de Thomas Sowell

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Noções de economia e política para aspirantes a revolucionários


É essencial que a sociedade consiga se mobilizar e protestar em prol de causas importantes, como ocorreu diversas vezes na história do Brasil. Sem essa forma de pressão popular, as mudanças seriam muito mais lentas, e talvez ainda vivêssemos numa ditadura militar. No entanto, nem toda manifestação popular é justificável racionalmente ou defende mudanças positivas. O povo nem sempre tem razão. O caso mais recente no Brasil, essa onda de protestos contra aumentos na passagem de ônibus, ilustra muito bem o que eu quero dizer.

Primeiro, é claro que o povo tem direito a se manifestar pacificamente sem ser espancado pela polícia. Segundo, é claro que a polícia errou ao usar violência desproporcional à situação. Esse tipo de coisa é óbvia demais, não vou perder tempo com isso. É muito mais interessante e produtivo analisar as reivindicações desse protesto cidadão e testar sua consistência. Não vou discutir as possíveis motivações políticas de parte do movimento, ou a infiltração por vândalos oportunistas sem cérebro. Vou criticar o movimento da maneira mais honesta possível, usando como "adversário" o manifestante ideal, pacífico, sincero, inteligente, preocupado com o bem coletivo e capaz de discutir sua causa racionalmente. Ao demonstrar por que até esse manifestante modelo está errado, ficará claro que o movimento como um todo não tem consistência e não merece nosso apoio irrestrito.

Vejamos então o que o nosso amigo manifestante defende e os meus contra-argumentos:

"Esse governo não nos representa"
Pode ser que não represente você em particular, mas certamente representa a maioria da população, que elegeu esse governo democraticamente. Nunca foi objetivo da democracia favorecer o bem de todos (não apenas utópico, como logicamente impossível) mas sim o bem da maioria (estou falando do objetivo, não da realidade), então sempre haverá descontentes com qualquer coisa que o governo faça. O governo representa sim a maioria, de acordo com as regras do jogo democrático. A maioria pode ser ignorante, manipulada, votar "errado" toda vez...  não interessa, são as regras do jogo, e ainda não inventaram sistema melhor! Então, por favor, pare de se proclamar representante dos "99%", porque a sua manifestação no Facebook e nas ruas, por mais gente que reúna, nunca chegará nem perto da representação e legitimidade alcançada nas eleições. Claro que a maioria da população é contra certas medidas, como o aumento da passagem de ônibus, mas isso não é motivo para desqualificar o governo como um todo ou falar em revolução popular.

"A política no Brasil está podre, a mudança tem que vir de baixo"
Sou obrigado a concordar, mas com ressalvas. Os políticos são corruptos? Muitos são. A política no Brasil é uma merda? Sem dúvida. Mas olha só que interessante... de onde vêm os políticos mesmo? Quem deu poder a eles? Eles são cidadãos também, não são? A verdade que poucos gostam de encarar é que os políticos, num sistema democrático, são um reflexo quase perfeito da sociedade. As pessoas normais são interesseiras mesmo, são corruptos em potencial; a política apenas seleciona os mais "aptos". Não vai adiantar trocar esses políticos, substituí-los por comitês revolucionários ou qualquer outra forma de poder (e não se engane, o anarquismo seria ainda pior!). A história vai se repetir, a corrupção voltará, decisões estúpidas serão tomadas, é uma lei da natureza humana. Então devemos apenas nos conformar e esperar o tempo passar? Não, mas o problema não vai se resolver no grito ou a curto prazo. Os políticos melhorarão na exata medida em que a sociedade melhorar também, e é aí que está nossa responsabilidade real. Seja um bom cidadão, eduque seus filhos, cumpra a lei, faça seu trabalho direito. É só isso, você não precisa se preocupar com política nem ir pras ruas exigir nada. Quem diz que isso é ser acomodado e alienado não sabe do que está falando, não entendeu o que é uma democracia.

"O transporte público é um direito do cidadão e deveria ser gratuito"
Nossa, que frase bonita... fico até comovido, mas infelizmente ela não resiste a uma análise racional. Basta entender um pouquinho de economia que a verdade vem à tona. Começando pelo óbvio: o governo não dá nada "grátis", tudo sai do nosso bolso de um jeito ou de outro. Se a passagem de ônibus for "grátis" para o usuário, isso quer dizer apenas que a grana saiu de todos os contribuintes, incluindo aqueles que nem usam o transporte público. Em outras palavras, o governo reduziu nossa liberdade de decidir como usamos nosso próprio dinheiro, ao direcionar artificialmente uma parcela maior de gastos para o transporte, quando outras pessoas preferiam gastá-lo em comida ou educação. Todos querem liberdade para gastar o próprio dinheiro, então não faz sentido diminuir o poder de compra do cidadão e aumentar o do governo, exceto em alguns setores intrinsecamente públicos (como a Justiça e as Forças Armadas).

Aí você vai dizer "tudo bem, isso faz sentido... mas o governo não precisa aumentar impostos, basta tirar de outras áreas, como a corrupção!". Tá, mas você não acha mesmo que ele vai cortar a corrupção, né? Então sobram as "outras áreas", e nisso você está certíssimo. Tem muitas áreas de onde poderia vir o dinheiro, e essa alocação de recursos é o principal desafio de qualquer governo. SEMPRE podemos investir mais em saúde e educação, DESDE QUE invistamos MENOS em outras áreas. Claro que dá para o governo pagar transporte grátis pra todos, mas precisamos entender que esse dinheiro fará falta em algum outro lugar. Se nos dissessem exatamente quanto esse paraíso de mobilidade urbana custaria REALMENTE (em termos de hospitais, escolas, estradas melhores etc.), será que você ainda acharia lindo?

E a transferência de poder e renda não fica só entre cidadãos e o governo, mas entre os próprios cidadãos. Às vezes isso é desejável, até os ricos em geral concordam que a distribuição de renda no Brasil é péssima. O governo tenta melhorar a situação com programas tipo Bolsa Família, imposto de renda progressivo e outros mecanismos. Até aí tudo bem (pelo menos para mim). Mas quando falamos em transporte público gratuito, a lógica é um pouco mais complicada. Sim, é verdade que HOJE quem mais usa transporte público são os trabalhadores pobres, e eles aparentemente seriam os maiores beneficiados de uma gratuitade geral. Só que, se fosse grátis, mais cidadãos de classe média e até alguns ricos também recorreriam ao transporte público. Na verdade, o aumento no uso por essas classes poderia ser até maior que o aumento nas classes baixas, que já usam diariamente esse transporte! Isso significa que, em comparação a hoje, o pobre subsidiaria o rico. Outra coisa: hoje em dia, quem mais usa transporte público é quem trabalha, não quem está desempregado. Com a gratuitade, o desempregado, que já está na pior, perde mais ainda, porque continua usando pouco o serviço, mas passa a subsidiar (com impostos sobre tudo o que consome) os que têm emprego e poderiam pagar a passagem! Por fim, quase tudo o que é de graça tende a ser usado em excesso (uma exceção interessante é o cinema Olímpia, que exibe filmes cult em Belém): isso significa que, quando você precisar do transporte público para ir à faculdade, ele vai estar superlotado, em parte porque muito vida loka resolveu matar aula e ir à praia...

É o tipo de medida que não faz nenhum sentido economicamente, mas traz uma APARÊNCIA de progresso e justiça social. É aí que mora o perigo, porque sempre há políticos populistas, loucos para agradar a multidão, que adorariam aprovar tamanho "benefício". Você, manifestante bem-intencionado, ao defender essas ideias, só contribui para aumentar o risco de isso virar realidade. Se queremos realmente melhorar a vida de quem não pode pagar pelo transporte público e precisa dele, seria melhor aumentar o Bolsa Família ou diminuir os impostos para todos. Assim o pobre teria mais dinheiro no bolso e poderia aumentar seu uso de transporte público, OU gastar mais com outras coisas, sem ninguém dizendo "você não precisa deste saco extra de arroz, vamos pegar este dinheiro e te dar um maravilhoso transporte grátis!".

"Ok, talvez não devesse ser grátis...  Mas está muito caro, isso é uma exploração!"
Entendo a sua revolta, também concordo que está caro, mas a solução que você propõe é ruim. A inflação é uma realidade na maior parte do tempo, em todos os países. Normalmente, os preços aumentam de maneira lenta, quase imperceptível de um mês para outro, como ocorre com o combustível e os alimentos. Outros mercados são mais regulados, como energia elétrica, mensalidades escolares e passagens de ônibus. O governo regula esses setores e só permite reajustes de vez em quando. Só que essas empresas sofrem continuamente com pequenos aumentos de custos. O combustível aumenta para você... e também para as empresas de ônibus. Os salários dos motoristas e cobradores são reajustados frequentemente (porque eles cobram isso, sob ameaça de greve, para ao menos repor a inflação que também os afeta). Ou seja, a empresa em situação normal sofre um contínuo e lento aumento de custos, e a única forma de ela continuar existindo e prestando seu serviço é aumentar os preços que cobra. Como o governo não deixa que ela aumente aos pouquinhos, todo mês, a empresa precisa calcular o aumento para aguentar financeiramente todo o período até o próximo aumento. Dependendo das projeções econômicas, esse aumento pode vir acima da inflação acumulada. Isso é absolutamente normal num país com inflação e não significa que a empresa esteja aumentando sua margem de lucro ou "explorando" mais o cidadão.

Aqui entra outro importante princípio econômico, a lei da demanda. Se o preço de uma coisa cai, o consumo aumenta; se o preço sobe, o consumo cai. Isso é óbvio, mas as implicações são profundas. Significa que a empresa de ônibus, mesmo que fosse a única do mercado e que o governo não regulasse seus preços, não poderia cobrar o preço que quisesse. Acontece que a empresa busca sempre o lucro máximo, não o preço máximo! Isso é fácil de entender: imagine que uma empresa ultra-gananciosa resolva aumentar o preço da passagem para R$100,00... será que o lucro dela aumentaria? Óbvio que não, porque aí ninguém mais usaria o serviço e ela iria à falência! (Embora ela seja monopolista, os consumidores buscariam alternativas, como bicicleta, táxis, vans ilegais, qualquer coisa)

É fácil perceber que o lucro máximo é obtido em um preço intermediário, nem muito alto nem muito baixo. Provavelmente as empresas que estão no mercado já operam muito perto desse ponto ótimo, e não têm interesse em aumentar o preço, a menos que seus custos também aumentem (o lucro total depende do preço, dos custos e do volume de vendas). É simplesmente isso que acontece de tempos em tempos com as empresas de ônibus(*): elas tentam preservar a margem de lucro que garanta a continuidade de suas operações. Não tem nada de abusivo ou de revolucionário nisso, é apenas o capitalismo em funcionamento (capitalismo que, mesmo que não admita ou não saiba, você adora).

O último argumento do manifestante provavelmente seria este: "mesmo assim o governo deve proibir esse aumento, e as empresas devem arcar com o custo... elas que diminuam a margem de lucro e se virem!". Isso daria certo por um tempo, mas logo ficaria claro que foi uma péssima saída. A empresa de ônibus tentaria manter o lucro (ou sairia do mercado, mas não entraria no ramo da caridade) reduzindo os custos, deixando a frota se deteriorar, diminuindo salários (ou seja, aumentando o risco de greve) e assim por diante. Não, não são só 20 centavos... O prejuízo para o povo custaria muito mais a médio prazo, na forma de transporte cada vez mais precário, inseguro e monopolizado. Esqueça essas utopias infantis, o lucro é o que move toda a economia, é o que faz alguém na China fabricar as roupas que você compra, é o que garante que a padaria vai abrir amanhã e que a farmácia terá o seu remédio em estoque. É impossível colher os benefícios do capitalismo sem aceitar que outra pessoa lucre com isso.

Com este discurso, pode parecer que sou um ingênuo que acredita cegamente no governo e nas empresas. Não, é claro que admito a possibilidade (*) de aumentos injustificados, planilhas de custos superfaturadas, cartel etc. Tudo isso deve ser analisado com critérios técnicos pelas prefeituras, conforme a lei. Mesmo que a prefeitura esteja envolvida na fraude, o Ministério Público pode investigar os contratos e processar os responsáveis. O cidadão comum não tem como detectar fraudes desse tipo só pelo "olhômetro". Deve cobrar esclarecimentos - isso sim é um direito -, mas não a redução de preço na marra!

Veja bem, não estou, de forma alguma, condenando as INTENÇÕES desses manifestantes, sejam os do Brasil ou de qualquer outra parte do mundo. O idealismo é saudável, e não faltam boas razões para protestar e boas propostas para defender. Vamos defender reduções radicais de impostos (inclusive os de importação), direitos das minorias e dos animais, transparência dos gastos públicos, salários menores para os políticos, reformas de verdade na educação (menos dinheiro para ensino superior público, muito mais para o ensino básico) e um monte de outras coisas que, mesmo que não gerem consenso, são ao menos defensáveis em termos racionais. Não basta parecer justo e estar cheio de boas intenções, estamos falando de dinheiro público e do futuro de todos, temos que pensar um pouco mais antes de sair gritando pelas ruas exigindo mudanças! Esse padrão de manifestação "viral" a base de Facebook é baixo demais! Infelizmente, o conhecimento para entender as repercussões mais amplas das propostas defendidas é muito raro (embora, como procurei mostrar, não seja complicado). As pessoas se guiam pela emoção e pelas aparências, e muitas vezes acabam defendendo, com toda boa vontade, péssimas ideias.

Nota:
* Quando o empresário consegue realmente aumentar o preço da passagem e ainda sair no lucro, isso não foi falha do capitalismo, mas sim uma falha da intervenção do governo, que protegeu artificialmente o empresário. Como isso acontece? O governo regula também a concorrência da empresa de ônibus, impedindo que novas empresas entrem no jogo ou limitando o número de vans e táxis permitidos na cidade. Se fosse um mercado realmente livre, a concorrência impediria o empresário de aumentar o preço impunemente.