terça-feira, 19 de novembro de 2013

As ilusões econômicas da esquerda

Em Economia, existem controvérsias quase eternas, nas quais é muito difícil saber quem está do lado certo. É normal economistas igualmente qualificados discordarem sobre a melhor política a ser adotada pelo governo, se é melhor priorizar o combate à inflação ou o crescimento do PIB, se é melhor diminuir ou aumentar os juros etc. O problema é quando o público em geral tem a ilusão de que outros pontos, muito mais básicos, também são controversos em Economia, como se tudo fosse questão de opinião.

Acontece que existem inúmeros fatos econômicos comprovados, tendências universalmente válidas; nesses casos, as controvérsias entre especialistas giram em torno apenas da instensidade dos efeitos. É como se a força da gravidade variasse em diferentes pontos da Terra, mas todos concordassem que ela existe e atua sempre para baixo. Infelizmente, até hoje muita gente nega as "leis da gravidade" em Economia. Os principais negadores estão à esquerda do espectro político: socialistas, comunistas, marxistas, chavistas... para simplificar, usarei o termo "esquerdistas".

A Economia não é uma ciência exata, capaz de fazer previsões precisas e indicar A solução certa para cada problema, mas também não é um samba do crioulo doido. Na verdade, defender certas teses econômicas hoje em dia só é possível por má fé ou ignorância. Eu diria que o esquerdista típico está para o economista como o criacionista está para o biólogo.

Causas

Antes de entrar nos temas econômicos, considero útil entender as três causas mais prováveis da grande aceitação das teses esquerdistas no Brasil de hoje.

1) Ignorância econômica generalizada. Infelizmente, não aprendemos economia na escola, mesmo sendo uma das ferramentas mais úteis para entender o mundo. Só recebemos rudimentos de economia dispersos nas aulas de matemática, história e geografia, estas últimas frequentemente ministradas por professores comprometidos com teses esquerdistas. Como resultado, a maioria de nós chega à vida adulta completamente despreparados para entender as controvérsias econômicas. Só vemos os fatos isolados nos noticiários, não temos qualquer embasamento teórico para interpretá-los e nos tornamos presas fáceis para todo tipo de discurso populista. Claro, vamos "ampliar os direitos do trabalhador"! Esquecendo que isso tem um custo, diminui a eficiência da economia, espanta investimentos, sobrecarrega ainda mais a previdência e que a economia não é estática: os empregos perdidos num setor tendem a reaparecer em outros, sem qualquer intervenção do governo.

2) A ilusão de sentido. A teoria econômica esquerdista tira proveito da tendência natural que temos de acreditar em tudo que "faz sentido". Parece óbvio que os patrões "exploram" os empregados, que existem classes sociais bem definidas e com interesses conflitantes, que os países ricos exploram os países pobres, e assim por diante. Também parecia óbvio que o Sol girava em torno da Terra ou que as espécies eram imutáveis! Felizmente, as explicações verdadeiras também fazem sentido e, uma vez aprendidas, desalojam para sempre as explicações ingênuas. A teoria marxista (e derivadas), por mais complexa e aparentemente racional que seja, é um castelo de cartas, pois se apóia em premissas falsas. Não existe luta de classes, o sistema econômico não tende para o socialismo, e o socialismo não é sequer desejável pela maioria das pessoas.

3) Tendência a culpar "o outro" pelos problemas. Outra tendência humana universal muito explorada pelos esquerdistas. Claro, se o Brasil vai mal, isso foi culpa da colonização parasitária por Portugal, depois da dominação imperialista da Inglaterra, agora dos EUA... Se os trabalhadores estão mal, a culpa é dos capitalistas exploradores. Ninguém gosta de assumir a culpa. Assim como certas religiões adoram culpar o diabo e os "encostos", o esquerdismo adora culpar a burguesia e "o sistema". Como a maioria das pessoas está insatisfeita com sua situação, nunca faltarão novos recrutas para esse tipo de ideologia.

Com essa receita simples, o esquerdismo econômico conquistou inúmeros adeptos, até entre gente que não vota com a esquerda, mas "simpatiza" com algumas teses.

Três pontos fracos do esquerdismo econômico

A teoria econômica marxista "degenerou" ao longo das décadas, e hoje o que se encontra na mente dos seguidores e simpatizantes é uma versão deturpada, em parte por culpa da exposição extremamente longa e complicada feita por Marx no seu famoso O Capital. Pelo menos Marx era um economista de verdade, com amplo conhecimento das teorias correntes e da história mundial. Já os esquerdistas de hoje não leram esse livro, não têm conhecimento básico de economia (às vezes nem de história), mas estão cheios das próprias ideias econômicas, mais fantasiosas que qualquer coisa escrita por Marx. O que eu critico aqui, portanto, é a versão popular do esquerdismo econômico, presente nas propostas dos políticos e nas manifestações de rua.

1) Atacam um livre mercado idealizado, que ninguém defende. "Vejam, outra crise do capitalismo! E ainda dizem que os mercados se regulam sozinhos". Sim, o capitalismo tem crises frequentes, mas isso não é sinal de que esteja fadado ao fracasso. E não, ninguém acredita que os mercados se regulem perfeitamente! Até os governos mais liberais interferem bastante na economia. Essas críticas vazias só mostram o que todo mundo já sabe: o capitalismo não é perfeito, a mão invisível do mercado não resolve tudo. A melhor defesa é simplesmente perguntar: existe alternativa melhor? Não, ainda não inventaram.

2) Seguem uma teoria rebuscada, hermética, cheia de jargão. Mais-valia, luta de classes, valor-trabalho.. a teoria marxista é complexa e tem todo um vocabulário próprio. Como a realidade subjacente é relativamente simples e observável por todos, podemos concluir que a complicação teórica não passa de uma forma de proteção. As religiões são especialistas em usar a barreira da "iniciação": só os iniciados, que entraram pro culto e estudaram os livros sagrados, podem criticar qualquer aspecto da religião; os" de fora" simplesmente não entendem e não sabem do que estão falando!

Já passei por isso. Discutindo com um esquerdista na internet, eis o argumento com que ele tentou se defender da acusação de ser um ignorante em economia:

"E você entende de economia socialista? Aplicar análises e conceitos liberais pra julgar um país tendente ao socialismo [Venezuela] é inocente, pra dizer o mínimo."

Obviamente, os iniciados, que teriam legitimidade para criticar, dificilmente fazem isso. Para dar uma ideia da dificuldade para se tornar um verdadeiro iniciado, veja esse trecho da "Advertência aos leitores do Livro I de O Capital", de Louis Althusser:

"(...) Entender que não se aprende a andar na teoria logo na primeira tentativa, súbita e definitivamente, mas pouco a pouco, com paciência e humildade. Esse é o preço do sucesso. Na prática, isso quer dizer que, para ser compreendido, o Livro I precisa ser relido quatro ou cinco vezes consecutivas. Esse é o tempo necessário para aprender a andar na teoria."

Ler quatro ou cinco vezes consecutivas o Livro I, de 1.500 páginas, só para "aprender a andar" na teoria marxista?! Algo me diz que.. NUNCA! Para piorar, fica claro que a dificuldade teórica acaba afetando os próprios adeptos. A maioria não sabe do que está falando, não domina a teoria marxista e muito menos o básico da teoria econômica moderna.

Não importa o que os adeptos digam, não existe economia socialista com um sistema separado de regras, causas e efeitos (assim como não existe uma bioquímica criacionista). Existe uma só Economia e um só mundo real. Qualquer que seja a preferência filosófica do analista, ele terá que usar os mesmos instrumentos, analisar os mesmos dados e levar em conta os mesmos efeitos, se quiser ser levado a sério.

3) Acreditam numa conspiração burguesa. Eu não sei se Marx acreditava nisso, mas os esquerdistas de hoje realmente acham que existem "interesses de classe" e que há uma espécie de conspiração mundial da "burguesia" para manter os pobres na pior. Isso não pode ser verdade, por dois motivos simples: seria ruim para a própria burguesia (ela quer mercado consumidor, e a classe média compra mais que os pobres); nunca existiu essa coordenação (no capitalismo é cada um por si, o interesse de um burguês é roubar o mercado do outro).

Fatos econômicos indiscutíveis

Mais importante que entender os erros do esquerdismo é conhecer alguns fatos econômicos bem estabelecidos. Nesta breve lista, dei prioridade aos fatos que os esquerdistas parecem ignorar.

1) O mercado para a maioria dos bens e serviços consegue se regular sozinho. Os preços refletem os custos, a oferta se adapta à demanda e tudo se aproxima do equilíbrio, sem necessidade de intervenção do governo. Veja bem, ninguém acredita que os mercados se ajustem perfeitamente e ninguém nega a existência de crises! O que os economistas sérios dizem é que a intervenção do Estado na economia não resolve esses problemas e que pode criar muitos outros. Os únicos mercados em que a maioria dos economistas admite uma regulação mais intensa são os chamados "monopólios naturais", como o fornecimento de energia elétrica.

2) Toda transação voluntária beneficia as duas partes. Não importa se é um emprego, uma compra, um empréstimo a juros, um aluguel... e não importa o quanto o preço pago é diferente da "média". Se as pessoas não foram coagidas, ninguém foi "explorado" na transação. O mesmo vale para o comércio entre países, todos ganham (não necessariamente em medidas iguais). As situações que tornavam a exploração possível (escravidão, colonização, coação por máfias etc.) ficaram no passado, ao menos nos países civilizados.

3) As empresas buscam o lucro máximo, não o preço máximo. Mesmo que se trate de um monopólio, a preocupação com "preços abusivos" é mais teórica que prática. Pense numa empresa de ônibus sem concorrentes: será que ela aumentaria os preços indefinidamente se não fosse impedida pelo governo? Claro que não! O lucro não depende só do preço, mas dos custos e do número de passagens vendidas. Se o preço subir além do que o público está disposto a pagar, o lucro da empresa cairá e ela será forçada a baixar o preço ou fechar. Na prática, o preço atual da maioria das coisas já está perto do que maximiza o lucro, há pouco interesse em aumentar.

4) Estabelecer preços máximos provoca escassez. A ideia de colocar um preço máximo ou "preço justo" para cada produto pode parecer boa para a população, mas nunca funciona na prática. Se o preço tabelado for mais alto que o preço natural, é inútil; se for mais baixo, provoca escassez: os produtores não conseguem ter lucro, reduzem a produção ou fecham as portas... como a demanda continua, surgem mercados negros (com preços iguais ou maiores que antes da regulação) e todos ficam pior do que antes, com exceção dos contrabandistas.

5) Tudo o que é "de graça" tende a ser usado em excesso. A maioria dos serviços funciona bem melhor quando a cobrança é proporcional ao uso. As estradas com pedágio são quase sempre muito mais bem conservadas e uma das razões por que os hospitais púbicos vivem superlotados é que o atendimento é grátis para o paciente.

6) As leis não conseguem determinar sobre quem vai recair o peso dos impostos. Mesmo que o imposto seja cobrado formalmente do vendedor, o custo extra será sempre parcialmente repassado ao consumidor. Da mesma forma, é impossível taxar "só os ricos", pois as repercussões econômicas afetarão também as classes baixas. Dizer que vai taxar só os ricos ou as empresas não passa de uma bravata populista: se você aumentar os impostos sobre as empresas, elas vão contratar menos, e a renda dos pobres também cairá.

7) Todos querem liberdade de escolha. Dada a diversidade humana, é impossível que um planejador central consiga prever que produtos e serviços cada pessoa vai querer com X de dinheiro. É sempre melhor, do ponto de vista individual, receber os X em dinheiro e gastar como quiser. Por isso pouca coisa deve ser fornecida "de graça" (ou melhor, compulsoriamente) pelo Estado.

8) O autointeresse é mais forte que o interesse coletivo. Isso é uma "lei" da natureza humana, com inúmeras implicações econômicas. Um trabalhador vai trabalhar muito melhor se o salário for proporcional à sua produção, comparado a outro que receba salário fixo e trabalhe "pelo bem da nação" ou coisa parecida. Uma empresa vai produzir mais e mais barato se estiver lutando pelo próprio lucro do que se estiver apenas tentando cumprir as metas estabelecidas pelo governo. O capitalismo tira proveito do egoísmo humano, enquanto o socialismo finge que a solidariedade falará mais alto e todos trabalharão pelo bem comum. Importante notar que essa mesma regra justifica certas formas de regulação: é óbvio que uma empresa poluidora não vai simplesmente reduzir seus lucros instalando filtros espontaneamente, então o governo cria leis e impostos que forçam a empresa a reduzir sua poluição.

9) Uma economia planificada terá desempenho muito inferior a uma economia de mercado, ao menos com a tecnologia atual. Talvez algum dia um supercomputador consiga analisar todas as informações relevantes para manter a economia nacional (ou mundial) funcionando perfeitamente, sem crises ou desperdícios, mas um exército de burocratas humanos nunca será capaz de superar a auto-regulação do livre mercado. Não é que o mercado se regule perfeitamente, é só que nunca inventaram alternativa melhor. A URSS não tinha a menor chance de vencer a Guerra Fria, estava condenada desde o princípio por um sistema ineficiente e pouco flexível.

Controvérsias econômicas legítimas

Mesmo concordando com todos os fatos básicos acima, ainda sobra muito espaço na Economia para controvérsias legítimas. Eis algumas dessas questões:

O Estado deve ter empresas?

Deve existir um salário mínimo? Qual deve ser o valor dele?

Deve existir uma jornada máxima de trabalho? As férias devem ser obrigatórias?

A desigualdade é um problema por si só? Como combatê-la? Taxar pesadamente as empresas e os mais ricos é uma boa ideia?

Qual a carga tributária ideal? Se o governo aumentar os impostos, a arrecadação vai mesmo subir?

Devemos taxar as importações para proteger os produtores nacionais?

Como controlar a poluição sem prejudicar a economia? Qual o "preço" de um ambiente limpo?

Deve haver um imposto internacional para diminuir os fluxos de capital especulativo?

Ninguém tem todas as respostas, diferentes governos podem adotar posições opostas, e talvez nunca saibamos quem estava "certo". Isso é muito diferente dos fatos bem estabelecidos que citei anteriormente. Você pode concordar filosoficamente com o socialismo, pode desejar que a sociedade funcionasse de um jeito diferente, pode até sonhar com um mundo perfeito, com uma natureza humana transformada, honesta e solidária. Talvez isso se torne realidade daqui a alguns séculos. Mas não tente ler a realidade de hoje com lentes distorcidas, porque assim você nunca conseguirá transformá-la.


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Bibliografia recomendada

Introdução à Economia, de Gregory Mankiw

Basic Economics, de Thomas Sowell