domingo, 8 de maio de 2011

Por uma reforma ortográfica de verdade

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(charge de Renato Machado)

     Joãozinho está na alfabetização. Aula de ditado. A Professora começa: "A casa é azul". Joãozinho é um dos melhores alunos da classe e escreve confiante: "A caza é azul". Na correção, a Professora explica a Joãozinho que casa se escreve com s, embora azul seja com z mesmo. Joãozinho fica confuso, não entende o motivo da distinção, e a Professora não sabe explicar.

     Você também passou por isso. A situação que descrevi acima é emblemática dos nossos primeiros problemas com a ortografia. O mais grave é que esses problemas nunca somem completamente, mesmo entre adultos cultos. Mas se é tão normal, por que eu deveria me preocupar com isso? Talvez porque a maior parte dessas dificuldades seja na verdade bem fácil de resolver (e não estou falando de substituir "A Voz do Brasil" por dicas diárias do Prof. Pasquale).

     Toda solução começa pela análise das causas do problema. No nosso caso, as duas mais comumente lembradas são o ensino de má qualidade e a falta do hábito de leitura na nossa população. OK, essas causas existem e sem dúvida precisam ser combatidas, mas até os mais otimistas dirão que tal combate levará décadas. Será que, além de nos empenharmos no "upgrade" do usuário, não valeria a pena olharmos para o outro lado da questão, a língua em si?

     Será que nossa língua é fácil de escrever? As regras da ortografia são claras, fazem sentido? Por que paraquedas não tem hífen mas para-raios tem? Por que o viagem é com g, se viajar é com j? Por que o x às vezes tem som de ch, outras vezes tem som de z e outras ainda tem som de cs? Por que existe o ç, se ele sempre tem som de s? Por que algumas palavras começam com h, se nessa posição ele não tem som? Existem inúmeros exemplos de inconsistências desse tipo na nossa língua. Não precisava ser assim, não acha? Mas então, como deveria ser? Veja se você concorda com as seguintes mudanças na nossa ortografia:

C -> Passaria a ter somente o som de k, nunca de s. Assim: certo -> serto, cimento -> simento.
G -> Manteria somente o som que tem nas sílabas ga e go. Nos casos em que tem som de j, seria substituída por este: gelo -> jelo, colégio -> coléjio. Gu não seria mais usado, salvo quando o u for pronunciado: guerra -> gerra, guarda -> guarda
H -> Sumiria do início das palavras, permanecendo somente nos dígrafos lh e nh. Assim: helicóptero -> elicóptero, homem -> omen, alho -> alho
M -> Para resolver seu conflito com o n, sumiria do final das palavras e de antes de p e b. Logo: tamm -> tann, ambíguo -> anbíguo
S -> Sempre com som de s, substituindo totalmente o ç, e substituindo x e c quando tiverem som de s. Abolição do dígrafo ss. Exemplos: açúcar -> asúcar, excesso -> eseso
X -> Mantido somente onde tiver som de ch, como em coxa, enxada. Substituiria completamente o ch: chá -> xá, chiclete -> xiclete. Onde soa como cs (tóxico, axioma), seria substituído por cs mesmo (tócsico, acsioma)
Z -> Substituiria s e x onde estes tiverem som de z.  Exemplos: casa -> caza, exato -> ezato

     Esses são exemplos de alterações bem óbvias, que atacam diretamente algumas das principais causas de confusão do português escrito. Mudanças em outros aspectos da escrita (como o uso do hífen, que atualmente pode ser "resumido" nesta incrível tabela) também são necessárias, sempre visando a acabar com as ambiguidades e exceções descabidas da língua escrita (não proponho mudanças específicas por falta de conhecimento aprofundado). A pontuação não mudaria em nada, nem o nome das letras, nem nada na língua falada. O objetivo é que a criança (ou o estrangeiro), depois de aprender a falar nossa língua, tenha o mínimo de dificuldade possível para transpor a barreira da escrita.

     Os benefícios de uma tal mudança seriam enormes e começariam quase de imediato. Nossas crianças aprenderiam a escrever com fluência mais rapidamente do que hoje em dia, perderíamos menos tempo pensando como-é-mesmo-que-se-escreve e consultando dicionários, menos pessoas sofreriam discriminação por "escrever errado", mais estrangeiros se interessariam em aprender o português. No início a nova forma de escrever pareceria estranha, mas logo as pessoas concordariam que ela é melhor e mais fácil.

     A língua é tida como um "organismo vivo", que se modifica e se adapta com o tempo, de acordo com os usos que os próprios falantes (e escreventes) fazem dela. Isso pode parecer uma boa coisa, uma tendência ao aprimoramento da língua e sua adaptação ao ambiente social em que ela é usada. Teoricamente, até os aspectos mais estranhos da nossa língua tem lá sua razão de ser, sua "utilidade" (do contrário, não estariam presentes na língua moderna). Não deveríamos nos preocupar em interferir no rumo "natural" que a língua segue. Vejamos se esse argumento resiste a uma análise um pouco mais detida.

     Em primeiro lugar, boa parte das estranhezas da língua simplesmente não tem uma boa razão para existir. Elas podem resultar de coisas como erros de cópia, diferentes interpretações sobre como escrever palavras importadas de outras línguas, preciosismo histórico, e assim por diante, mandando pra escanteio a uniformidade e a praticidade do sistema ortográfico.

     Em segundo lugar, a "adaptabilidade" da língua (que poderia ao longo do tempo minimizar alguns problemas) já não funciona tão bem quanto antes. Com a alfabetização de quase toda a população e a difusão dos meios de comunicação de massa, o ritmo de evolução de uma língua muda muito. Atualmente, talvez surjam palavras novas muito mais rapidamente que antes, mas de resto a língua vai se tornando mais e mais "engessada", fixa nas regras já existentes, principalmente na modalidade escrita. Presa aos padrões de certo e errado, a língua deixa de mudar espontaneamente. Quando se chega a esse ponto, a menos que uma iniciativa deliberada faça mudanças na estrutura, a língua permanecerá fossilizada.  (Podemos notar no "internetês" atual, além do uso excessivo de abreviaturas e gírias, tendências de substituições de letras bem parecidas com as que estou defendendo)

     Eis que surgem as reformas ortográficas, como uma tentativa de adaptar as regras oficiais às pequenas mudanças espontâneas que "fugiram do controle" ao longo de décadas de uso. Quem já se familiarizou com o recente Acordo Ortográfico (assinado em 1990, em vigor no Brasil desde 2009) viu que pouca coisa mudou. O objetivo principal desse acordo foi uniformizar a ortografia entre os países de língua portuguesa. A necessidade de reformar a ortografia do Português (e de muitas outras línguas, mas isso não é problema nosso) existe desde muito tempo, mas não tem a ver com a questão menor de uniformizar grafias entre países, afinal as diferenças nunca atrapalharam a comunicação eficaz. Se é para fazer mudanças deliberadas, de cima pra baixo, que elas venham para facilitar a vida de quem usa a língua, e resolver os problemas mais óbvios que encontramos no uso diário e no ensino. A questão é importante demais para ficar nas mãos de uns poucos doutores da Academia Brasileira de Letras; já é hora de ampliar o debate e ver quem leva a melhor, se a tradição ou a razão.

     Como muita gente, eu já pensava vagamente em alguma reforma ortográfica que simplificasse de verdade as coisas, e fiquei muito feliz ao topar com o site do movimento Acordar Melhor, uma ótima iniciativa do Prof. Ernani Pimentel (você pode vê-lo nesta entrevista no programa do Jô), e fonte de inspiração principal para este post. No site você encontrará argumentação da melhor qualidade e poderá assinar o manifesto virtual em prol de uma reforma ortográfica significativa e racionalizante. Também me inspirei nas propostas (bastante radicais) do grupo Alfabeto sem Amarras, embora discorde de alguns pontos. O importante é estimular o debate. Pense a respeito, forme uma opinião, discuta com seus amigos e professores. A democracia e a educação do nosso País só tem a ganhar com essas atitudes.


P.S: Depois de praticamente finalizado o texto, achei outro post sobre o assunto, muito interessante e bem-humorado, no blog Viagem e História. Não tenho a pretensão de ser original, só quero ajudar a engrossar o coro dos que pensam a respeito e acham que a nossa ortografia merecia uma reforma melhor.