What the hell?! O que o George W. Bush está fazendo num post sobre educação no Brasil? Calma, logo tudo será explicado. A cena acima ficou famosa: em 11 de setembro de 2001, o presidente dos EUA recebe a notícia dos ataques terroristas enquanto visitava uma escolinha infantil (e continua lendo o livro com as crianças, como se nada de grave estivesse acontecendo). O que pouca gente sabe é o que diabos Bush foi fazer lá afinal.
Não vou prolongar o mistério: Bush estava lá promovendo uma das primeiras leis importantes aprovadas no seu mandato, conhecida como "No Child Left Behind". Essa lei condicionou o repasse de verbas federais para a educação nos estados a algumas exigências, principalmente: 1) adoção de testes padronizados para acompanhar o progresso das escolas e dos estudantes; 2) embasamento científico para quaisquer programas e métodos de ensino adotados pelas escolas.
A primeira dessas condições é bastante lógica, e muitos países adotam medidas similares. O Brasil já está no caminho certo, com bons programas de avaliação como Saeb e Enem. A segunda condição é mais inusitada, e por isso mesmo mais interessante. Como assim, "embasamento científico" na educação? Você pode pensar que isso é uma trivialidade, já que todo método de ensino utilizado tem algum tipo de embasamento teórico. Acontece que não é qualquer embasamento teórico que se qualifica como "científico", especialmente quando está em jogo a formação das nossas crianças. A tal lei americana é bem estrita quanto a isso, por isso cito alguns trechos:
"SCIENTIFICALLY BASED RESEARCH: research that involves the application of rigorous, systematic, and objective procedures to obtain reliable and valid knowledge relevant to education activities and programs (...) evaluated using experimental or quasi-experimental designs in which individuals, entities, programs, or activities are assigned to different conditions and with appropriate controls to evaluate the effects of the condition of interest (...) ensures that experimental studies are presented in sufficient detail and clarity to allow for replication (...) has been accepted by a peer-reviewed journal or approved by a panel of independent experts through a comparably rigorous, objective, and scientific review"
Bush pode ter feito muita besteira em seu governo, mas é inegável que essa lei que foi uma baita bola dentro. A mensagem da lei não é um autoritário "usem o método que nós indicarmos", mas sim "podem usar o método que quiserem, desde que provem que ele funciona". A liberdade é preservada, mas a coisa passa a ser mais controlada, dada a enorme importância da educação para qualquer sociedade.
Mas tudo isso não será exagero? Educação não é muito mais uma delicada arte do que uma coisa técnica e fria? Pode até ser, mas convenhamos que arte sem técnica não funciona. Vejamos uma analogia: quando a indústria farmacêutica quer lançar um novo medicamento, ele não precisa passar por várias etapas de teste, um processo que leva anos e custa milhões? A sociedade exige isso, afinal o que está em jogo é a segurança e eficácia do medicamento, e portanto a saúde das pessoas. Ninguém afirma que o rigor técnico tira a importância do "lado humano" da Medicina, e o mesmo deveria valer para o ensino. Você não acha que a educação das crianças é tão importante quanto a saúde? Por que deveríamos então aceitar que qualquer método educacional fosse adotado em nossas escolas sem passar por testes rigorosos?
Isso nos remete à questão: que métodos atualmente em uso de fato passaram por testes sérios? Como podemos saber se determinado método de ensino funciona melhor ou pior do que outro? Mais uma vez, os EUA foram pioneiros. No final da década de 60, o grande Project Follow Through foi criado para avaliar os resultados de um programa anterior de apoio socio-educaional para crianças pobres (Head Start) e também para testar a eficácia de vários métodos concorrentes de ensino existentes no país. Essa foi provavelmente a maior avaliação sistemática desse tipo já realizada no mundo: durou três décadas, envolveu cerca de 70.000 crianças em 170 comunidades pobres dos EUA e teve um custo total estimado em 1 bilhão de dólares.
E quais foram os resultados principais desse gigantesco experimento educacional? Surpresa! Um método pouco conhecido ou difundido na época, chamado Direct Instruction, foi o campeão incontestável. Os modelos concorrentes tiveram resultados pífios, por vezes desastrosos. Os gráficos abaixo resumem a situação:
Ahh, então com certeza os métodos que usamos hoje são muito melhores, inspirados nesse método vencedor da década de 70, não é? Não. Os métodos ineficazes continuaram em voga (talvez com outros nomes), não só nos EUA, como na maior parte do mundo, inclusive no Brasil. A triste realidade é que a escolha do método de ensino não se baseia em critérios científicos: a tradição ou a última moda é o que define as escolhas. Os métodos mais adotados estão cheios de palavras bonitas, como "autonomia", "foco no aluno", "aprendizagem participativa", "auto-estima" e assim por diante.. cheios de boas intenções, mas sem qualquer apoio experimental. (A propósito, não é só na Educação que métodos bizarros e sem evidência científica conquistaram um lugar ao sol: o exemplo mais gritante continua sendo a Homeopatia, que consiste em puro placebo açucarado vendido como remédio, mas é especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina)
Voltando ao Bush naquele fatídico 11 de setembro, ele estava deliberadamente tentando promover a velha e desprezada Direct Instruction, visitando uma escola que seguia essa abordagem e lendo um livro infantil ("The Pet Goat") do Prof. Engelmann, criador do método. Mas como funciona esse método campeão, afinal? E por que não foi adotado em massa depois dos resultados impressionantes obtidos? A resposta para a primeira pergunta também responde boa parte da segunda. Vamos dar uma olhadinha mais de perto no método..
Para quem não teve paciência de ver o vídeo, um resumo: numa aula de inglês, a professora está passando um exercício de spelling. Ela dá instruções passo-a-passo para os alunos, que devem estar sempre sincronizados e dar respostas em uníssono. Cada frase da professora está escrita na cartilha, e os alunos também já estão visivelmente "maceteados" quanto à dinâmica da aula. O método é mecânico, repetitivo, há um roteiro rígido que o professor deve seguir, e as crianças devem reagir como robôs. E daí? O importante é que funciona!
Conhecendo a natureza do método, era previsível a resistência dos professores e de todo o establishment educacional. Eis a resposta "elegante" do Prof. Engelmann: "Não damos a mínima para o que o professor pensa, o que o professor sente (...). No seu tempo livre, o professor pode odiar [o método]. Não importa, desde que eles o sigam". Ou, como diria o ex-Ministro da Educação Paulo Renato (recém-falecido): "o foco da educação é o aluno e não os sindicatos de professores".
Não sei como anda a aplicação dessa lei nos EUA, mas sei que eu gostaria de ver algo assim aplicado no Brasil. Por aqui, certos teóricos/educadores já falecidos (alguém pensou em Paulo Freire?) são endeusados, e seus métodos propagados como uma maravilha. Tais métodos não são defendidos porque funcionam melhor ou pior que outros (aparentemente não existem dados a respeito), mas sim por opções ideológicas e preferências pessoais dos professores. Isso tem que acabar. Já está na hora de a Pedagogia abandonar sua tradição pré-científica e amadurecer como uma verdadeira profissão, que promete e entrega resultados consistentes.
Houve um tempo em que a Medicina também era praticada com bases teóricas precárias (usava-se sangrias porque se acreditava que muitas doenças eram causados por "excesso de líquido" no corpo); hoje ela está quase totalmente apoiada em ciência de verdade, e os tratamentos e remédios antigos são substituídos quando surgem outros mais eficazes e seguros. Que tal olharmos a educação da mesma forma? Temos a obrigação moral "tratar" as mentes de nossas crianças e jovens com algo que funcione com certeza, e não apenas com remedinhos caseiros improvisados. Não estou dizendo que métodos atuais não funcionam! É claro que funcionam em alguma medida, a questão é que poderiam funcionar muito melhor, sem que precisássemos gastar uma fortuna ou esperar por soluções tecnológicas definitivas (como o download direto ao cérebro visto em Matrix).
É evidente que a educação no Brasil tem muitos problemas, a maioria derivados da simples falta de investimento do governo. Mas ficar o tempo todo só batendo na mesma tecla, reclamando por melhores salários para os professores, merenda de melhor qualidade, etc.. simplesmente não vai resolver! Não há uma conspiração governamental para manter a educação de qualidade baixa, isso não interessa nem ao capitalista mais selvagem (pode interessar a alguns ditadores patéticos, isso sim). Existem problemas que não se resolvem só com dinheiro, mas sim com uma reorientação de esforços na direção correta. A educação no Brasil precisa muito mais desse tipo de mudança do que de mais investimentos.
Será que falta pesquisa em educação no nosso país? Eu diria que não, já fazemos muita pesquisa sobre isso. Temos várias revistas (ditas científicas) especializadas, e todo ano ocorrem inúmeros congressos, simpósios e encontros a respeito. O que precisamos urgentemente é de mais pesquisas quantitativas (ao invés de somente qualitativas), pesquisas que apoiam ou refutam metodologias concretas de ensino, com rigor estatístico, ou seja, exatamente o tipo de pesquisas que a lei americana tentou incentivar na marra. Esse tipo de pesquisa não custa tão mais caro e é muito mais útil! Precisamos de uma lei assim também no Brasil. Não que uma lei sozinha vá mudar da noite pro dia os paradigmas inadequados do nosso sistema educativo, mas como diria o Tirica, pior do que tá, não fica!


Nenhum comentário:
Postar um comentário