O mundo está mudando, e rápido. Mas algumas coisas nele parecem ter parado no tempo, e uma delas é o ensino formal praticado nas escolas (outra é o Sílvio Santos, mas isso não vem ao caso). Tanto o conteúdo como os métodos de ensino evoluem num ritmo estranhamente lento (compare com a medicina, a indústria ou a agricultura). Quando se fala de Educação pública no Brasil, é inevitável pensar nos inúmeros problemas que a afligem, geralmente decorrentes da falta de investimento por parte dos governos. Mas não vou aqui tratar desse tipo de problema, e sim de algo mais geral, que afeta até as melhores escolas particulares do País: o problema do currículo escolar, o conteúdo ensinado aos alunos ao longo do ensino fundamental e do ensino médio. Afinal, por que grande parte do que a gente aprendeu na escola parece tão inútil hoje em dia?
Se você precisasse da informação “quem foi o 3º Presidente da República do Brasil?”, o que faria? Se tentasse consultar sua memória, provavelmente não saberia o que responder, e mesmo se tivesse um nome em mente (Floriano Peixoto?), dificilmente teria certeza. Teria que pesquisar a informação na Internet ou num livro. No entanto, em algum momento da sua vida escolar, você soube quem foi o 3º Presidente (Prudente de Morais, de 1894 a 1898). Essa informação desapareceu da sua mente, como quase todo o conhecimento factual que você decorou ao longo de anos na escola. Que lástima!
Mas o problema não foi ter esquecido toda essa massa gigantesca de informações (afinal, ela continua disponível e facilmente acessível por por nós nos livros e na Internet), nem foi o “espaço” que esse tipo de informação “ocupou” temporariamente no nosso cérebro, mas sim o tempo que foi investido pelo sistema educacional em tentar ensinar essas coisas para nós. O “espaço mental” é um recurso praticamente ilimitado, mas o tempo em sala de aula não! Temos só alguns anos para aprender conhecimentos e habilidades que, em larga medida, determinarão nossa chance de sucesso no futuro.
Isso nos remete à questão: O que nossas crianças deveriam estar aprendendo na escola? A tabuada completa? A classificação das orações subordinadas? As características das classes de seres vivos? Os afluentes do Amazonas? Nada disso. As crianças deveriam aprender coisas mais úteis, menos chatas e menos esquecíveis. Vamos dar uma olhada no problema atual e em como remediá-lo.
Vejamos o caso das duas disciplinas consideradas mais fundamentais, Português e Matemática. Em Português, as habilidades importantes são só duas: ler e escrever (a “interpretação de texto” faz parte da leitura). É claro que elas tem que ser aprimoradas progressivamente, permitindo que o aluno leia e escreva textos cada vez mais complexos, e isso leva mesmo bastante tempo. O que eu defendo é que todo o conteúdo de Português a ser passado para o aluno tem que estar diretamente ligado ao domínio dessas duas habilidades primordiais.
Como decidir que partes do conteúdo são essenciais e que partes são basicamente inúteis? No caso do Português, é bem simples: pegue um adulto culto, que saiba ler fluentemente, e avalie o que ele sabe sobre língua portuguesa com alguns testes simples, que cubram por alto todo o conteúdo de Português até o final do ensino médio. Provavelmente esse indivíduo já terá esquecido muita coisa nessa matéria, e o ponto importante é justamente o que ele não sabe ou não lembra mais: o esquecimento daquelas inúmeras regras e classificações obviamente não interferiu na capacidade de ler e escrever bem, portanto essa parte do currículo escolar poderia ser perfeitamente eliminada! Repita o teste com mais algumas pessoas e você verá um belo padrão emergindo.
Quanto à Matemática, pense um pouco a respeito. Quantas vezes você precisou usar uma equação de 2º grau depois do vestibular? A menos que você tenha se formado em uma área relacionada (alguma Engenharia, por exemplo) ou andou estudando para certos concursos, você não precisou mais desse tipo de equação. Mas você ainda precisou de algumas coisas bem básicas da matemática, independentemente do rumo que seguiu na vida. Em níveis decrescentes de utilidade, deve ter sido mais ou menos o seguinte: as quatro operações fundamentais, frações e porcentagens, noções de probabilidade, regra de três simples, uns poucos tópicos de geometria plana, noções de conjuntos, equações de primeiro grau. Um repertório nada impressionante, perto de tudo aquilo que você chegou a aprender! (Para refrescar um pouco sua memória: inequações, equação do segundo grau, sistemas, matrizes, logaritmos, juros compostos, geometria analítica, geometria espacial...).
Nas outras matérias a situação é parecida. Temos conteúdo inadequado e excessivo em todas elas. Esse imenso conteúdo é apresentado em série, no melhor estilo “linha-de-montagem”, dando a impressão de que o processo está indo muito bem, de que os professores estão ensinando e os alunos estão aprendendo (isso é “confirmado” pelas avaliações periódicas), e de que o tempo está sendo bem aproveitado, afinal, trabalha-se praticamente no limite, sendo muito difícil tentar comprimir mais conteúdo nos currículos.
Não é só uma questão de tempo mal utilizado aprendendo coisas irrelevantes. É uma questão de chatice. Estamos forçando os alunos a estudar coisas que eles não querem, pelas quais não se interessam (e quem poderia culpá-los por isso?), estamos de fato condicionando muitos estudantes a ter aversão pelo estudo, com consequências terríveis para o futuro deles (e para nossa economia e segurança pública). Várias coisas podem tornar o ensino chato, mas o assunto em si é uma das principais: a criança só vai gostar do que conseguir aprender, e só vai aprender o que for capaz de atiçar sua curiosidade. Assuntos artificiais, sem conexão com o cotidiano ou com as questões que realmente intrigam os alunos, são uma aberração e precisam ser substituídos por algo melhor.
As causas dessa ênfase absurda no conteúdo enciclopédico certamente são variadas, e não tenho conhecimento para reconstituir um quadro explicativo completo. Mas vou chamar a atenção para um dos fatores que considero crucial: influência da Universidade. Os cursos superiores querem determinado perfil de aluno, o que é perfeitamente compreensível. Se dou aula de Cálculo I na faculdade, adoraria que meus alunos já trouxessem uma base muito sólida de Matemática. Os professores dos outros cursos também tem lá suas preferências. E as universidades tem liberdade para criar seus processos seletivos. Já viu aonde quero chegar? Os cursos superiores acabam impondo suas vontades nos vestibulares, e a exigência de conhecimento enciclopédico se propaga “para baixo” no sistema e afeta praticamente todos os níveis anteriores de ensino.
Acontece que escola não existe só para preparar ou selecionar alunos para a universidade! Infelizmente, o sistema educacional virou praticamente isso: uma máquina extremamente ineficiente, lenta e cara trabalhando para selecionar os estudantes com o perfil esperado pelos cursos superiores (leia-se: alguém com um mínimo de inteligência e, principalmente, disciplina e paciência suficientes para estudar por anos a fio). Ninguém precisa de diploma superior algum para ser bem-sucedido como empresário, ator, bombeiro, agricultor, vendedor, artista plástico, músico, atleta, policial ou escritor. Muito menos para funcionar adequadamente em sociedade nos papéis de eleitor, cônjuge, pai e consumidor. Logo, a escola não tem que se subordinar às preferências arbitrárias da Universidade.
As universidades, como culpadas de boa parte dos problemas de conteúdo nas escolas, deveriam urgentemente rever seus padrões antiquados de seleção. O Governo Federal deu um passo muito interessante nessa direção, através do Enem, de teor muito menos conteudista que os vestibulares tradicionais. Essa prova, aplicada desde 1998, foi provavelmente a melhor mudança que já aconteceu no ensino médio brasileiro. Além de excelente instrumento de avaliação e comparação (gerando dados preciosos para o Governo e para toda a comunidade escolar), agora permite ao estudante se candidatar para diversas instituições simultaneamente, mesmo em estados diferentes. À medida que esse sistema for adotado por mais universidades, o ensino escolar tende a se adaptar (esse é um dos objetivos declarados do Governo), mudando para melhor no importante quesito dos conteúdos.
Muito bem, digamos que a sociedade decida por uma reforma efetiva do ensino, eliminando boa parte desse excesso de conteúdo nos currículos. Certamente não queremos diminuir o tempo das crianças na escola (hoje em dia só se fala em aumentar esse tempo), então o que colocaríamos no lugar dos conteúdos descartados?
Acredito que boa parte do tempo liberado deveria na verdade ser investida nos conteúdos originais remanescente. Ou seja, trabalhá-los de maneira mais completa e aprofundada, permitindo que os estudantes realmente dominem tais conteúdos e saibam como usá-los. Além disso, é preciso focar nas coisas que a pessoa aprende e não mais esquece, coisas que são úteis fora da escola, no trabalho, e para o resto da vida. Essas coisas são basicamente atitudes, habilidades, técnicas e respostas para perguntas interessantes.
Todo mundo tem uma noção intuitiva do tipo de atitudes que queremos desenvolver nas nossas crianças e jovens: confiança, auto-estima, atenção, respeito pelo próximo, curiosidade, paciência, cooperação. Não estou defendendo que essas coisas sejam “ensinadas” em novas “matérias”. O ensino bem feito já promove essas atitudes, quase como subprodutos bem-vindos, mas sempre há espaço para tornar o processo mais controlado, mais garantido. A Psicologia tem muito a dizer sobre condicionamento para tais atitudes, e sobre o tipo de ambiente social e intelectual que promove as características que queremos nos cidadãos do futuro. Esse conhecimento só precisa ser melhor transferido para o sistema escolar.
Quanto às habilidades relevantes, podemos destacar: ler, escrever, interpretar textos, usar a matemática no dia-a-dia, compreender gráficos e tabelas, pesquisar informações em livros e na Internet (e não apenas colar o que aparece no primeiro resultado do Google!), entender como se dá a aquisição do conhecimento em diferentes áreas, pensar cientificamente, detectar falácias e falhas de argumentação, falar em público sem medo, apresentar ideias e soluções de forma persuasiva, relacionar conhecimentos de diferentes áreas, cuidar da própria alimentação e saúde. Os Parâmetros Curriculares Nacionais são um bom exemplo de teoria bem intencionada. Eles focam corretamente na aquisição de habilidades pelos alunos, e trazem um lista bem sensata e completa de habilidades em cada área. Só que boas intenções não bastam. É preciso adotar métodos de eficácia comprovada (ou desenvolvê-los, se necessário) para explorar efetivamente a maravilhosa capacidade mental latente nas crianças. A ideia de que as habilidades viriam naturalmente a partir do ensino dos conteúdos acaba não se concretizando na prática das escolas. Um dos motivos é que temos conteúdos demais para pouco tempo (se os conteúdos fossem suficientemente explorados e devidamente aprendidos, é provável que as habilidades relacionadas de fato “emergissem”).
Voltando aos conteúdos, sempre que for realmente necessário que os alunos aprendam fatos e conceitos (uma área fértil para a tradicional decoreba), deveríamos tentar introduzir isso através de perguntas interessantes, que explorem curiosidade deles. Não simplesmente despejar o conhecimento em suas mentes, só porque “está no programa”! O cérebro “prefere” pensar por meio de narrativas, de motivações, de causa e efeito. Uma informação desconexa do tipo “o número atômico do oxigênio é 8” é inútil, o cérebro sabe disso e fará questão de esquecer mais rapidamente possível! As ciências naturais são especialmente propícias para instigar perguntas interessantes (pelo menos para mim), como “por que o céu fica avermelhado no pôr-do-sol?”, “por que o sangue para de escorrer de uma ferida, se ainda tem muito sangue no corpo?”, “por que é a Terra que gira ao redor do Sol e não o contrário?”, “por que a bolinha-de-gude para mesmo quando não bate em nada?”. Ao tomar conhecimento dos porquês, fica muito mais fácil guardar a informação.
Com o espaço criado pela eliminação de algumas partes irrelevantes, poderíamos até mesmo introduzir novas matérias. Por exemplo, educação musical (já existe uma lei prevendo isso) e educação alimentar/culinária (pense em quantos adultos hoje tem problemas do coração ou são obesos porque nunca foram devidamente educados sobre comida, ou quantos comem em fast-foods e pedem pizza simplesmente porque nunca aprenderam a cozinhar decentemente). Introduzir alguns conhecimentos novos não contradiz a minha defesa de menos conteúdo irrelevante no ensino. A educação básica precisa ser o mais generalista possível, para proporcionar às crianças o direito de escolher seu próprio caminho para o futuro.
Precisamos preparar nossos estudantes para um futuro imprevisível. Não temos como saber que conhecimentos serão os mais relevantes daqui a 20 ou 30 anos. Mas uma coisa é certa: não estamos mais na era da informação bruta. O que conta hoje em dia não é o saber enciclopédico (nem mesmo um diploma), e sim criatividade e a habilidade de obter informações relevantes e usá-las de uma maneira que crie valor. Ou nosso sistema educacional se adapta a essa tendência, ou o Brasil vai continuar deitado eternamente em berço esplêndido, segurando o diploma de país do futuro.
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