quinta-feira, 5 de julho de 2012

Como vencer uma discussão

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cabo de guerra

     Em primeiro lugar, vamos deixar claro que nem sempre o objetivo de uma discussão é "vencer", pois a discussão não precisa ser encarada como uma disputa. Na verdade, a maneira mais saudável de conduzir e encarar uma discussão é como uma simples conversa, que tem por objetivos expor suas opiniões, ouvir os argumentos da outra parte e aprender alguma coisa no processo. Assim, qualquer aprendizado decorrente de uma discussão já seria o seu "lucro" pelo tempo investido: não se trata de ganhar a discussão, mas sim de ganhar alguma coisa (novas informações e ideias) por ter participado dela.

     Dito isso, temos que reconhecer que, às vezes, a discussão é sim uma disputa. Nesses casos, o objetivo é claramente "vencer", e as aspas são para lembrar que precisamos, antes de prosseguir, definir o que seria "vencer" uma discussão. Obviamente, se a outra parte admitir derrota, você venceu. Mas na maioria dos casos não é tão simples... o adversário se recusa a aceitar que perdeu, por mais que todos os argumentos dele tenham sido demolidos. Então, podemos usar outros dois critérios para definir a posição vencedora: 1) a opinião majoritária dos observadores presentes (desde que seja uma plateia inicialmente neutra ou equilibrada) e 2) caso se chegue a um consenso, o quão próximo essa posição final ficou de cada uma das posições inicialmente defendidas. O segundo critério já nos dá uma pista da melhor estratégia para ganhar discussões...

Regra de ouro para vencer discussões: esteja do lado certo!

     Você deve estar pensando "que dica idiota, mais óbvio impossível", mas tenha um pouco de paciência e me deixe explicar. A questão importante é saber como escolher o lado "certo" (com mais chances de ganhar), antes mesmo de começar a discussão. Acontece que existe uma regra, ou melhor, uma forte tendência para que o lado vencedor seja simplesmente a posição mais moderada, a menos extrema entre as duas em debate. É muito, muito mais fácil defender uma posição moderada que uma posição radical! Quem já leu "A Arte da Guerra" deve se lembrar que um dos preceitos mais importantes era posicionar o exército em terreno mais alto que o do adversário: combater "morro abaixo" era uma grande vantagem na época das flechas e lanças. Na discussão é a mesma coisa, sendo que o "morro" é a posição moderada.

     Pense num tema polêmico qualquer... a questão do aborto, por exemplo. Independente do que você realmente pensa a respeito, não acha que a posição mais fácil de defender é que "o aborto é justificável em alguns casos, mas não em todos"? Isso é bem genérico, soa sensato para a maioria das pessoas. Qualquer posição extrema ("aborto deveria ser permitido em qualquer caso" ou "o aborto deveria ser totalmente proibido, sem exceções") seria facilmente atacável! Para atacar a posição ultra-liberal, basta mencionar, por exemplo, o caso de um feto com 7 meses, que poderia perfeitamente sobreviver caso nascesse prematuro e tivesse assistência médica adequada. É óbvio que abortar intencionalmente uma criança nessas condições seria muito parecido com um assassinato! Para atacar a posição proibicionista extrema, é só usar condições extremas, como casos de anencefalia ou estupro: fica muito difícil alguém defender que a mãe seja obrigada a ter o filho nessas condições.

     O mais sensato é já começar com uma posição moderada. Faça o teste, pense em outros exemplos e verá que quase sempre vale a equação "moderado = sensato". Quando os participantes entram com a mente aberta numa discussão, a tendência é que ao final cada um tenha cedido um pouco, aproximando as posições, muitas vezes chegando até a um consenso perfeito. Ou seja, um debate honesto tende naturalmente às posições moderadas. Logo, se você já estiver plantado firmemente na posição moderada, a tendência é que consiga defendê-la e ganhe a discussão.

     Sabendo disso, basta que você evite entrar em polêmicas nas quais a sua opinião seja visivelmente extrema aos olhos dos outros. Não há nada de errado nesse tipo de posição, só estou dizendo que será muito mais difícil conseguir que as pessoas concordem com você. Por outro lado, você pode entrar com confiança em qualquer discussão na qual alguém esteja defendendo uma posição extrema e a sua seja mais moderada (repare que não importa se a posição é considerada moderada no conjunto da sociedade, basta que seja menos extrema que a do seu adversário).

     Por fim, se não houver plateia e nenhum dos lados ceder terreno (situação muito frequente), você ainda tem como saber quem ganhou a discussão. Basta conhecer um pouco da teoria, as "regras" da boa argumentação e os truques sujos usados pelo adversário: sabendo disso, você poderá avaliar muito melhor o desempenho dos participantes em qualquer qualquer debate. Seu adversário, é claro, também sairá do debate com a impressão de ter vencido, mas você saberá que ele está enganado.


É claro que isso não esgota o assunto; minha intenção foi apenas chamar atenção para o fator que considero o mais importante na determinação do vencedor de qualquer debate, ou seja, o nível de moderação/extremismo da posição. Outros fatores importantes incluem carisma, inteligência e conhecimento da teoria da argumentação. Os dois primeiros são difíceis de aperfeiçoar, mas existem bons livros ensinando a teoria, como estes:

1 - Como vencer um debate sem ter razão (ou "A arte de ter razão" em outras edições), de Artur Schopenhauer. Ensaio clássico, bem curto e direto, consiste na "classificação" de 38 estratagemas ou "golpes baixos" comumente usados em discussões. Vai desde algumas falácias clássicas (ad hominem, petição de princípio etc.) até truques nada sutis do tipo "declarar que o adversário acaba de admitir sua conclusão". Chega a ser engraçado em vários momentos! É útil saber essas táticas, mesmo se não tivermos a intenção de usá-las, pois elas são onipresentes no discurso político e nas discussõezinhas do dia-a-dia, e precisamos saber nos defender. Este texto é antigo e já está em domínio público, podendo ser encontrado facilmente na internet (neste link tem uma boa versão resumida em português).

2 - A construção do argumento, de Anthony Weston. Outro livrinho curto, este é organizado em torno de "regras" práticas, muito bom, mais útil que o do Schopenhauer (embora não tão divertido de ler); não teoriza tanto e foca só nos erros mais comuns de argumentação e em como evitá-los. Também traz uma boa seção sobre a construção de textos argumentativos.

3 - Pensamento Crítico: o Poder da Lógica e da Argumentação, de Walter Carnielli & Richard L. Epstein. Dos que eu já li, esse é o mais completo, ideal pra quem quer se aprofundar um pouco mais no assunto. Não que seja complicado (é tudo muito bem explicado e exemplificado), mas é uma leitura um pouco mais demorada.

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